Marés Vivas: Peter Murphy trepou paredes
Actuação cheia de energia do ex-vocalista dos Bauhaus
Por: Redacção/ João Carneiro da Silva | 2008-07-18 06:50O saudosismo gótico e pós-punk marcou o primeiro dia do festival Marés Vivas 2008, que teve início esta quinta-feira, em
Gaia. Dois antigos pesos-pesados do género, o ex-vocalista dos Bauhaus Peter Murphy, e os Sisters of Mercy, atraíram vários
milhares de fãs até ao recinto localizado à beira do rio Douro.
Em ambiente «dos 7 aos 70 anos», o cruzamento de
gerações esteve bem patente por entre os festivaleiros. Desde adolescentes «fardadas» ao estilo punk - com t-shirt dos Sex
Pistols e pins - até aos góticos vestidos de negro dos pés à cabeça. Pelo meio, os mais velhos reviveram a década de 1980
sem precisar de resgatar a roupa do baú. Até as «tias» e os «tios» dançaram ao som de clássicos como «She's In Parties».
O
festival arrancou no pequeno palco secundário, logo à entrada do recinto, e reservado aos artistas nacionais. Os Klepht, do
VJ da MTV Diogo Dias, e os Tara Perdida, do ex-Censurados João Ribas, deram as boas-vindas aos visitantes durante o final
de tarde.
O palco principal só abriu «portas» pelas 22h00, altura em que os suecos Shout Out Louds se estrearam em
concertos em Gaia. O vocalista Adam Olenius recordou o espectáculo no festival Paredes de Coura 2006, «perto do Porto, nas
montanhas», para recuperar um tema pouco tocado ao vivo pela banda, «My Friend And The Ink On His Fingers».
Mas foi
o novo disco «Our Ill Ways» que recebeu maior atenção no alinhamento; «Tonight I Have To Leave It», a banda sonora da campanha
publicitária da Optimus, fechou a actuação do quinteto sueco. O som tímido saído do teclado de Bebban Stenborg não denunciou
imediatamente o grande êxito dos Shout Out Louds, mas o público acabou por reconhecer o tema, o único a ser verdadeiramente
festejado em massa.
O murmúrio dos Sisters of Mercy
Dois anos após a última passagem pelo Coliseu
de Lisboa, os ingleses The Sisters of Mercy regressaram a Portugal para mais uma vez recordarem os três álbuns de estúdio
editados, o último dos quais lançado em 1983. A banda liderada pelo vocalista Andrew Eldritch tem realizado digressões esporádicas
durante os últimos 20 anos, mas desde então nunca chegou a gravar nenhum disco novo.
O concerto no Marés Vivas ficará
na memória pelas piores razões. Problemas técnicos terão afectado tanto o som dos instrumentos - faltou potência para o rock
industrial praticado pelos Sisters - como transformaram a voz de Eldritch num murmúrio irritantemente imperceptível.
Embrulhados
num espesso nevoeiro artificial, os Sisters of Mercy debitaram tema após tema de forma pouco eficaz, agarrando apenas os fãs
acérrimos. O que foi pena, porque com melhores condições sonoras, a reacção do público teria sido bem diferente, especialmente
em «Vision Thing», «Dominion/Mother Russia» e «Temple of Love».
Peter Murphy trepou paredes
A expectativa
era muita em torno do último concerto da noite. Muitos recordavam o concerto de má memória de Peter Murphy no Pavilhão Municipal
de Gaia, em Novembro de 2007, e temiam o pior face à qualidade do som que calhou aos Sisters of Mercy. Porém, o «Senhor Bauhaus»
não desapontou os seus fãs e deu espectáculo em palco com uma voz irrepreensível, teatralidade q.b. e energia ilimitada.
Durante
cerca de duas horas, Peter Murphy resgatou os momentos mais altos dos anos Bauhaus e da sua carreira a solo, brindando mesmo
a assistência com «Hurt», um original dos Nine Inch Nails. Uma pérola interpretada em tom aventureiro, com o cantor de 51
anos a escalar parte da estrutura do fundo do palco, qual Homem-Aranha calvo e de fato preto. Porque velhos são os trapos.
A
boa-disposição de Murphy foi uma constante ao longo de todo o concerto. Sorrindo e acenando vezes sem conta para o público,
o ex-Bauhaus desdobrou-se ainda em «olás» e «obrigados» na língua de Camões. E assim foi conquistando a audiência, canção
a canção, até ao final com «Cuts You Up», hit de 1990.
Esta sexta-feira há mais Marés Vivas e o destaque vai
para Tricky e os Prodigy.

