Jamie Cullum é e oferece a quem o ouve um permanente começo. É sempre novo. Vertigem criativa nascida do momento que o britânico vive como único. Se o alinhamento reservado para o EDP Cooljazz Fest deste ano até teve inauguração na música The Same Things, do mais recente Momentum, no Municipal de Oeiras, de Same Things só mesmo o irrepetível que é cada momento musical de Cullum. E a noite de sexta-feira foi irrepetível.

Ainda nem um minuto de concerto passara e éramos brindados com solos de teclados elétricos, mais longos, muito mais intensos que no original de estúdio. E ele já pulava, saltava, dava-se-nos; gelo quebrado, cumplicidade conquistada, como se tivesse decorrido meio espectáculo.

Como o cantor, pianista, baterista, compositor, como o enorme artista disse, no alto do seu 1,64 metros, a relação com Portugal e os portugueses já a tem há dez anos. Pela história viajámos com ele num deslumbrante momento jazzy de Get Your Way, do álbum de 2005 Catching Tales, o quarto de seis editados ao fim de 14 anos de carreira.

Embalado pelo Jazz foi com essa sonoridade que tão solidamente o estrutura que nos embalou, dialogando ao piano, juntando a voz, meio rouca aqui, arrastada ali, ao sopro do saxofone, num longo improviso do clássico Just One of Those Things de Cole Porter.

A promoção de Momentum foi feita sem excesso e o autor teve a indicação de que os portugueses já acolheram o single que promove o seu mais recente álbum de originais lançado no primeiro trimestre deste ano. «Everything You Didn`t Do» foi cantado e dançado no Parque dos Poetas. Bem recebidas foram ainda Edge of Something e a versão de Cullum de Love For Sale. Visto foram ainda casais abraçados ao som de Pure Imagination a única balada do disco (nota curiosa na obra discográfica daquele que alguns, por desconhecimento, apelidam de meloso).

«Gosto dos portugueses. Vocês são bonitos. Atraentes. É um orgulho estar aqui». Simpático. Empático. Jamie fala connosco como toca: com o coração aberto e despojado.

«Today I`ve been in Cáscaix. Cáscaix... difficult to say», e assim, arrancando sorrisos calorosos, o músico explicou que tirou o dia para fingir que era surfista. Episódio partilhado para apresentar a música seguinte, cuja história, confessou Jamie, é a de um rapaz baixo, nada atraente, a quem as «miúdas» não ligavam, e que para se fazer notar virou-se para o piano.

«Vocês pensam que a música fala de mim, não é?» perguntou para os milhares na sua frente que riram em resposta. «I`m offended!», rematou antes de começar a tocar «When I Get Famous» ainda abafada pelas gargalhadas do público.

Jamie Cullum é um perfomer de uma versatilidade imensa, que se por um lado bebe no Jazz a sua maior influência, por outro escancara portas para a pop, soul, electro. Uma mescla de sonoridades vertidas a espaços, entrecruzando músicas do próprio. Foi assim com a lembrança do refrão de Teardrop dos Massive Atack «entalado» entre uma sessão de percursão feita no piano, todo o piano, e a música «Frontin» do álbum Twenty Something. Repetiu-se com a frase musical de Rihanna Shine Bright Like a Diamond que foi pontuando a interpretação de Please Don`t Stop the Music.

O momento alto da noite estava, no entanto, reservado para o fim. Com a chuva a cair, Jamie apercebeu-se da qualidade de legião de fãs que por cá tem. Poucos, muito poucos, foram os que abandonaram o concerto. «You are amazing», disse por mais de uma vez antes de fazer explodir o público com o sempre electrizante Mixtape do álbum The Pursuit.

O único encore trouxe-o de volta a palco para um encantatório If I Ruled The World. Soube a pouco!

Queremos sempre mais do vencedor de um Grammy e de dois Brit Awards, que aos 33 anos tem lugar entre os melhores do jazz mundial.

Na certeza de que um mundo regido pela música de Cullum seria seguramente melhor fizeram-se as despedidas, pelo meio a promessa de um «See you soon». Ao certo a 26 de Novembro no Coliseu do Porto.