"Esta curadoria provou que a música portuguesa tem espaço para ter um palco num grande festival". As palavras são de  João Fernandes, mais conhecido por DJ Kamala, e que esta sexta-feira juntou apenas nomes da música portuguesa no palco Clubbing do NOS Alive.

Momentos após o concerto que juntou HMB, Filipe Gonçalves e o próprio DJ Kamala para uma atuação única - que contou ainda com a participação especial de Carminho e Agir - a TVI24 falou com o grupo para saber como encaram a presença da música que se faz em Portugal nos festivais e o que esperam que aconteça daqui para a frente.

Como é que correu o concerto?

HMB - Acho que correu muito bem. Pela reação do público da primeira música até à última, acho que correu muito bem. Saímos daqui bastante satisfeitos com o trabalho que fizemos. 

O que é que acharam da ideia de ter um palco inteiramente à música que se faz em Portugal?

DJ Kamala - Eu não achei grande ideia (risos). Para mim é um sonho tornado realidade, ter a curadoria num dos melhores festivais da Europa e do mundo e juntar isso com o prazer de juntar amigos e de estar em cima do palco a dar um concerto é único. Em relação àquilo que recebemos de volta do público é absolutamente recompensador porque pegar numa banda que é maioritariamente de raízes de soul e fazer a festa como fizemos do início ao fim não é normal. E mais uma vez, o público do NOS Alive aderiu e valorizou o que é português. 

E uma banda que no ano passado esteve no palco principal...

HMB - No ano passado tivemos uma experiência incrível, estávamos no palco principal como HMB, a fazer a nossa cena, e o público teve connosco e foi incrível. E hoje, estávamos no palco Clubbing que a única coisa que tem de diferente em relação ao palco principal é ser mais pequeno, porque as pessoas estão lá.

É um público mais quente?

HMB - É quente, é outro calor diferente e isso entusiasma-nos. Entusiasma-nos o desafio, o poder sair da nossa rotina e poder fazer uma coisa tão diferente. Juntar o hip hop, juntar o DJ Kamala, juntar o Filipe Gonçalves e podermos construir um set de raiz, completamente diferente daquilo que nós estamos habituados a fazer e foi incrível. O público aderiu imenso e foi muito recompensador.

Quem esteve a assistir ao concerto percebeu que mais do que uma banda a atuar o que aconteceu foi uma reunião de amigos? É isso que sentem quando trabalham juntos?

Filipe Gonçalves - Eu acho que sim porque aquilo que sentimos sempre que trabalhamos um com os outros é que estamos em família.

HMB - E hoje foi uma grande reunião da música portuguesa, como já disse o Kamala, e nós repetimos. Nós somos músicos portugueses, somos diferentes, temos orgulho na nossa música, e temos orgulho na música uns dos outros. Estávamos há pouco a falar: nós não temos de ter medo de partilharmos o palco. O público gosta de nós e o público gosta disto e nós estamos a aprender uns com os outros: estarmos a aprender uns com os outros, estar a desfrutar do talento uns dos outros é incrível. Nós só temos de louvar aquilo que é nosso, que é português. Há música boa em português, de qualidade.

Filipe Gonçalves - E ganhamos todos com isso. Noutro dia estava a trabalhar Héber [Marques] e ele disse uma coisa que para mim resume tudo isto. Ele ao voltar a trabalhar comigo ou estar a passar-me um conhecimento ou a ele, só esta partilha... só podemos ganhar os dois. Portanto, quantos mais formos, mais conhecimento e mais partilha temos entre todos e mais crescemos. Sejamos nós fadistas, sejamos nós do soul, sejamos nós do hip hop.... Toda esta fusão e toda esta generosidade que a nossa geração está a começar a ter, acho que é fantástica porque nos ajudamos muito uns aos outros e temos muito orgulho uns nos outros. 

Foi essa aprendizagem que vem de todos os estilos musicais que vos fez convidar Carminho e Agir a subir ao palco? Como é que essa partilha é importante para vocês?

DJ Kamala - É maioritariamente importante para o público. O que é uma reunião de amigos quando temos oito ou dez mil pessoas à nossa frente? Na realidade diz muito do à-vontade dos HMB de estarem num palco principal ou de estarem num palco NOS Clubbing, a vibe é a mesma, a entrega é a mesma, o gozo é o mesmo porque aquilo que fomos apresentar fomos apresentar em conjunto. E honestamente, o DJ Kamala no palco principal não fazia sentido, mas os HMB, o Filipe Gonçalves e o DJ Kamala no palco destes faria todo o sentido. Mas não é por o palco ser mais pequeno que a Carminho não pode subir ao palco, que o Agir não pode subir ao palco e não podemos brindar o público com os nossos talentos.

Querem desmistificar que não importa o tamanho do palco, é isso?

DJ Kamala - O que eu gostava de desmistificar é que independentemente da dimensão do festival o que é português, o que é nacional, é bom e tem o seu espaço. Isso é que eu gostava de desmistificar.

Mas não notam que nos últimos anos o apoio à música portuguesa tem crescido?

HMB - Com certeza. Notamos isso e também acho que isso tem acontecido porque é de notar que a música portuguesa tem ganho mais qualidade ainda e cada vez há mais gente a cantar música em português, ainda por cima. Tens artistas portugueses a fazer música e tem mais gente a cantar em português. Eu acho que isso é tudo de valor e serve para demonstrar que está a crescer.

DJ Kamala - Eu comparo muito isso, hoje em dia, com o hip hop. Há uns anos, cantar em português era chessy, não era fixe, e depois chegaram estes senhores [HMB] que têm muita qualidade e disseram assim: "Vocês têm a vossa opinião, mas isto é muito bom". O hip hop, hoje em dia, é exatamente a mesma coisa. Antigamente, era uma cena de underground, não sei se gosto disto. Hoje em dia, é impossível ignorar o movimento de hip hop. E é impossível ignorar, em Portugal, o movimento de soul foul a nível musical. Há procura, as pessoas gostam e, verdade seja dita, seja no NOS Alive - que felizmente, independentemente de ter as melhores bandas do mundo, continua a apostar no que é nosso - seja qualquer festival grande em Portugal, hoje tem música portuguesa e tem hip hop.