A socióloga Paula Guerra, responsável pela primeira investigação académica sobre o movimento punk-rock em Portugal, defendeu esta segunda-feira que o punk pode ter sido «vendido, comprado e transformado», mas continua a existir, sob formas mais ou menos visíveis.

A professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que falou à Lusa à margem do congresso «Keep it simple, make it fast! Underground music scenes and DIY cultures» (traduzido do inglês como «Mantém-no simples, fá-lo rápido! Cenas musicais alternativas e culturas faz-tu-mesmo»), na Casa da Música, no Porto, referiu que «é importante hoje, mais do que nunca, numa era do efémero, do virtual, da velocidade, perceber que há reconstituição de mundos, de quotidianos».

No mesmo sentido, o professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Porto Augusto Santos Silva frisou que o punk, do ponto de vista sociológico, não desapareceu: «Como é típico das gerações e das modas musicais, já teve um apogeu, já foi declarada a sua morte, já foi ensaiada a sua ressurreição, mas acontece com o punk como aconteceu com o rock inicial e acontecerá sucessivamente».

Paula Guerra realçou que há uma «reconfiguração» do próprio movimento, que é «mais ou menos visível», e chamou a atenção para cenas «com algum dinamismo em Portugal, nomeadamente Leiria, Castelo Branco e no entorno de Lisboa».

«Acho que mais do que falarmos nisso [o importante] é a omnipresença das coisas, em que continuam lá», explicou a socióloga.

Santos Silva afirmou ainda que o DIY (Do It Yourself), ligado ao punk, «é justamente o princípio de aproveitar toda a parafernália tecnológica hoje disponível em matéria de gravações, de reprodução, para tentar criar um circuito de difusão e circulação alternativa ao 'mainstream'».

Paula Guerra acrescentou que este tipo de movimentos de expressão artística e cultural é um fenómeno «de uma certa resistência híbrida» que acaba «por ter um papel fundamental para uma resistência quotidiana muitas vezes invisível, mas que é fundamental em termos de identidade».

A conferência internacional «Keep it simple, make it fast!», organizada a partir do projeto com o mesmo título e com o objetivo de analisar as manifestações punk em Portugal entre 1977 e 2012, decorre até sexta-feira e inclui dezenas de debates e sessões sobre culturas musicais e sociais alternativas com especialistas nacionais e internacionais.