Volta com “Delicadeza”, mas cheia de “sede de regressar aos palcos de Portugal” a artista que colocou os portugueses a cantar “Ai ai ai” e “Boa Sorte”. Vanessa da Mata atua esta sexta-feira e sábado nos coliseus de Lisboa e Porto, cinco anos após o seu último espetáculo a solo em terras lusas, num formato diferente, mais intimista, mais “delicado”, se preferirmos adaptar o próprio nome da atuação.

Antes de sequer pisar solo nacional, ainda em Madrid, a cantora brasileira esteve ao telefone com a TVI24, para falar sobre tudo o que os fãs podem esperar deste regresso a Portugal, mas também sobre os planos para o futuro, que incluem um novo disco de estúdio e um novo livro. Pelo meio, ainda falou dos artistas portugueses que ouve e com quem gostava de atuar, e confessou um particular interesse em cantar fado.

Estou ansiosa [por voltar], faz muito tempo. Tive motivos que me fizeram afastar um pouco das [digressões] internacionais, adotei três crianças. Tive, portanto, três motivos fortes. Eles precisavam de apoio, de afeto… mas sim, eu gosto muito de Portugal. Sempre fui muito bem tratada. O público português gosta das letras, de literatura, acho o povo português, neste momento, muito mais interessados nas crónicas, naquilo que eu procuro fazer hoje em dia, não só no ritmo. É sempre um prazer voltar porque as pessoas prestam atenção nisso.”

Vanessa da Mata agradece todos os espetáculos que teve oportunidade de concretizar, os pequenos e os grandes concertos, mas confessa que o sucesso não a deixou fazer tanto quanto gostaria o género de espetáculo que agora vem apresentar. “Delicadeza” é a sua oportunidade de o fazer: serão concertos mais pessoais, para um público menor, que permitem uma proximidade com a audiência e que não a obrigam somente a apresentar o último trabalho que lançou.

Esta sexta-feira e sábado, 24 e 25, nos coliseus de Lisboa e Porto, os fãs portugueses vão poder ouvir não só versões acústicas de músicas próprias da artista, acompanhadas somente com piano, violão e guitarra – a cargo de Rodrigo Braga e Maurício Pacheco -, mas também sons de outros músicos, alguns saídos das suas memórias de infância.

 

Fale-nos um pouco sobre este espetáculo. O que podemos esperar de “Delicadeza”?

É um espetáculo muito especial. É como se fosse um mimo para a minha pessoa e ao mesmo tempo para o público. É um presente que eu dou a mim própria depois de tantos anos de carreira. Porque muitas vezes a carreira impõe [espetáculos] com milhares de pessoas na rua, casas de espetáculos muito grandes e onde eu não consigo colocar todas as músicas que eu gostaria. Toco temas do [último] disco lançado e poucas dos anteriores, é um projeto de disco, onde entram poucas músicas que sempre quis cantar, e cantar de outra maneira. É como se oferecesse a mim mesma uma plateia menor, como se trouxesse o público para a minha sala de estar.

Consigo ver a plateia, ter uma conversa com ela de uma maneira mais intima. A carreira de sucesso – não reclamando dela, obviamente – levou a que me distanciasse do público.

Que músicas compõem este espetáculo?

Tem algumas músicas do ‘Segue o Som’- último trabalho, lançado em 2014 -, mas não só, na verdade é uma grande mistura. [Por exemplo], tem uma música de Orlando Silva de 1930, outra que é uma música sertaneja que eu ouvia quando era criança. Vou variando muito. Vou tocar músicas de outros discos em piano, alternando com guitarra, mas de uma maneira mais nua, mais aberta e declarada que em outras versões.

Após a digressão de “Delicadeza”  o que se segue? Umas férias ou um novo trabalho de estúdio? 

Acho que dentro de mais ou menos um ano teremos um novo trabalho. Eu não costumo parar, acabo [a digressão] e entro para estúdio. Não consigo parar, ficar de férias. Sou muito ‘workaholic’ (viciada no trabalho). Acho que mais para o final do ano já vamos ter uma ideia do que vamos fazer, se é um CD, se é um DVD, mas a tendência será [mais para este último].

A Vanessa gosta de escrever e já publicou o romance “A filha das flores”, em 2013. A carreira na escrita é para continuar? Para quando um segundo livro?

Adoraria [voltar a escrever]. Só preciso que isso seja feito com mais foco. Neste momento está difícil, não consigo. Ainda bem que temos bastante trabalho, mas está difícil para mim. Eu comecei um livro novo há um tempo atrás e até agora não gostei dele. (risos) Acho que vou recomeçar. [Mas] a ideia é que seja completamente diferente do anterior.

Faz música, literatura… o que lhe falta fazer?

Essencialmente, eu quero promover cultura, era uma coisa que adorava fazer profissionalmente. Mesmo como empresária, conseguir um conjunto de artistas… não sei como, ainda, mas vamos ver. Tenho mais dois amigos e estamos a montar uma casa de espetáculos que deve ficar pronta no próximo ano. Mas a ideia essencial é promover cultura, toda a vida fui assim.

Já pensou em parar um pouco, ou acredita que o momento mais alto da sua carreia ainda pode estar para vir?

Parar só quando morrer mesmo. Se parar eu morro. (risos) Acho [que o ponto alto da minha carreira pode ainda estar para acontecer. [Se bem que] essas coisas são relativas, o ponto alto pode ter sido o “Ai ai ai”, depois pode ter sido o “Boa Sorte”, o trabalho que mais gosto pode não ser o que outros mais gostam, por isso é relativo.

Tem um carinho especial por Portugal. O que conhece da música portuguesa? Há algum artista português com quem gostasse de trabalhar ou partilhar um palco?

Vivi momentos lindos [em Porugal]: cantando com o António Zambujo, ouvindo Celeste Rodrigues e Amália, meu amigo José Eduardo Agualusa, tenho muito carinho e gratidão por Portugal. Adoraria dividir o palco com Celeste Rodrigues, por exemplo, meus amigos da Banda do Mar ou Carminho, que é uma cantora maravilhosa. E tem outras que eu escuto: Buraka Som Sistema, Orelha Negra, Mariza - uma cantora maravilhosa também.

Adoraria cantar um fado [neste espetáculo], mas tenho medo de o assassinar (risos). Mas um dia ainda o vou fazer. É uma necessidade minha.

Além dos concertos com outros artistas, há algum momento ou situação que tenha acontecido em Portugal que lhe tenha ficado na memória?

Fui a um restaurante e tinha uma senhora que chorava muito e que me trouxe um telefone. Disse-me: ‘tem que falar com ele, ele separou-se de mim com uma música sua, se falar com ele vai voltar’. Senti muita pena daquela senhora, achei que estava muito exaltada e a única coisa que consegui dizer foi ‘esse homem terminou um casamento consigo com uma música, a senhora não devia estar com ele’.

Para terminar, há alguma mensagem que queira deixar aos fãs que vão estar nos coliseus?

Estes vão ser dois concertos cheios de poesia, com canções da história do Brasil, antiga e atual, um espetáculo íntimo e meu, onde conto coisas da minha família. Quem puder venha ver este concerto, depois eu volto com o meu espetáculo normal com vários músicos, o concerto ‘mais forte’, digamos assim. Para o resto do povo de Portugal, quero dizer que tenho muita saudade e espero que a música continue a evoluir na vida deles. Estou voltando com uma sede dos palcos portugueses, acho que ninguém se vai arrepender.