A voz de Amália Rodrigues ouviu-se esta quinta-feira, num hotel do centro de Díli.  A fadista foi protagonista de um concerto do pianista Júlio Resende, em que os quase 300 lugares sentados foram insuficientes e mais de uma centena de pessoas acompanhou o espetáculo em pé.

Um piano emprestado por uma cidadã norte-americana que vive na capital de Timor-Leste permitiu ao compositor de Faro dar a conhecer "Amália por Júlio Resende", o primeiro álbum a solo do pianista, depois de gravar os três primeiros álbuns em quarteto e trio.

"Os escritores escrevem prosa, poesia, contos. Enquanto escritor de música, enquanto pensador de música isto é mais um género que exploro. Vou explorar musicalmente o fado, como exploro o jazz e outras temáticas", explicou à Lusa, depois do concerto.

"É a primeira vez que a editora da Amália permite que alguém use a sua voz, o que é para mim uma grande honra. É de grande significado trazer este álbum a Timor".


Uma oportunidade "de atuar a solo no piano, mas também de mostrar a força dessa menina que já não está entre nós, mas que continua a encantar tanta gente", sublinhou.

O ministro do Turismo de Timor-Leste, Francisco Kalbuadi, representantes do corpo diplomático, dezenas de portugueses e outros residentes estrangeiros de Díli, além de muitos timorenses acompanharam o concerto, uma iniciativa conjunta da Embaixada de Portugal e do Instituto Francês.

A noite de piano, em que além de Júlio Resende estiveram no palco o duo franco-japonês Ykeda, foi o primeiro evento do extenso calendário previsto para as comemorações dos 500 anos da chegada de navegadores portugueses a Timor.

A visita a Díli antecede a edição do seu novo álbum, que conta com a participação da cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz e inclui um DVD gravado nos estúdios Valentim, de Carvalho, em Paço de Arcos, nos arredores de Lisboa, que inclui a interpretação de cinco temas e uma conversa com o escritor Gonçalo M. Tavares.

"É uma surpresa que vem de Espanha. A Amália gostava muito de cantar em espanhol. Desta vez vai ser bonito ver alguém espanhol a cantar em português e ver a força com que ela abraça o fado, e gosta de fado". "É uma coisa muito bonita que faz pensar que aquilo em que somos rivais, Espanha e Portugal, países irmãos e um pouco rivais, mas que aqui vão ser só irmãos", disse.

Os oitos temas que constituem o novo CD são "Uma outra Mariquinhas", "Fado Loucura", "Da alma", "Gaivota" e "Enfrentar o medo". Com Sílvia Pérez Cruz são interpretadas as canções "Lágrima", "Cucurrucucu Paloma" e "Pare Meu".

Na segunda metade do concerto de hoje, o pianista francês Patrick Zygmanowski, premiado em França, e a japonesa Tamayo - que formam o duo Ykeda - partilharam as teclas, com peças de Johannes Brahms, o "Bolero", de Maurice Ravel e a "Rhapsody in blue", de Gershwin.

Zygmanowski, que esteve em Díli pela primeira vez em 2003, saudou o facto de, ao contrário de então - quanto tocou num órgão elétronico japonês -, ter agora um piano.