Mickaël dos Santos está a terminar as gravações do primeiro disco e a viver "um sonho", um ano depois de ter calado e emocionado o júri de um programa televisivo francês.

É um sonho que se realizou. O que quero transmitir aos outros é que acreditem nos seus sonhos, não desistam porque eu não desisti, sempre acreditei no meu sonho e hoje tornou-se realidade e mesmo mais que realidade", contou o jovem de 21 anos à Lusa.

Foi a 25 de outubro de 2016 que o lusodescendente apareceu no palco de "La France a un incroyable talent" e deixou os elementos do júri boquiabertos perante a simplicidade do discurso e o vozeirão que surgiu quando começou a cantar "A Change Is Gonna Come".

No programa, o jovem de Gap, no sudeste de França, dizia, sorridente, que o seu sonho era "tornar-se cantor" e recolheu alguns risos do público quando disse que era trolha, mas o tom mudou assim que afirmou que a música o ajudou a superar a morte da mãe, deixando um dos júris sem palavras e de olhar embaciado.

Quando pegou na guitarra acústica e começou a cantar, Mickaël dos Santos deixou todos os elementos do júri entre estupefação e emoção, acabando por fazer chorar um deles, que o selecionou para passar diretamente para a final do concurso. As imagens foram parar à internet e o vídeo tornou-se viral, tendo sido visto mais de 10 milhões de vezes em alguns dias.

"Era uma vez um jovem que apareceu com a sua guitarra e contou a história da mãe que morreu. Com a minha aparência, acho que mostrei algo que as pessoas não esperavam, uma voz que - dizem - aparece não se sabe bem de onde. Acho que a minha simplicidade também foi apreciada. Também disse que era trolha, mas acho que o principal foi por causa de minha mãe", recordou.

Mickaël dos Santos perdeu a mãe aos 16 anos, deixou de estudar e começou a trabalhar nas obras, tendo-se refugiado na música para escapar à dor.

Comecei a tocar quando perdi a minha mãe. Foi esse o clique. Ela era o meu ponto de referência e perdi uma parte de mim e da minha vida. Procurei algo para me refugiar, para fugir dos problemas da vida e encontrei isso na guitarra, na música. Senti coisas na música que nunca tinha sentido na vida e senti que tinha uma ligação com a música. Um dia, a família e os amigos disseram para eu me lançar e mandei a inscrição", contou.

Mickaël é autodidata, nunca teve aulas de canto nem de guitarra, aprendeu "tudo com a televisão e através de tutoriais na internet" e começou a tocar guitarra ao ouvir os Gipsy Kings.

A primeira inscrição num programa televisivo não falhou e conquistou júri, telespetadores e internautas, levando a editora Sony Music a propor-lhe a gravação de um disco em França.

As luzes da ribalta e o tempo exigido para a preparação de um álbum não o fizeram deixar a construção civil e Mickaël continua a trabalhar nas obras e a gastar duas semanas por mês para as gravações porque "trabalhar duro é uma força e uma forma de motivação".

Continuo na mesma a trabalhar. Durante duas semanas pelo menos vou gravar, dar entrevistas, mas é uma força para mim pensar que no fim de semana estou num concerto de Tony Carreira a fazer a primeira parte e dias depois estou nas obras. Para um jovem como eu, é uma forma de me dizer que se quero ser cantor a tempo inteiro tenho de trabalhar duro e um dia serei cantor profissional", acrescentou.

O segundo single vai sair em novembro, chama-se "Viver a vida" e tem duas versões, uma inteiramente em português e outra em francês e português, tendo sido escrita e composta pelo músico "num estilo eletropop" e falando sobre "a necessidade de pôr os problemas para trás e viver um dia de cada vez".

O disco, que vai ser lançado em janeiro, vai ter "um pouco de tudo", incluindo canções em português, nomeadamente uma das versões "Viver a Vida" e uma cover da canção "Hallelujah", cantada em inglês e português.

Mickaël dos Santos, cuja mãe era fã de Tony Carreira, cantou o tema "Pobre Diabo" com o artista português no disco "Le Coeur des Femmes", lançado em fevereiro deste ano e fez a primeira parte do seu concerto no Le Grand Rex na semana passada.

Agora, o jovem gostava de ir cantar a Portugal, a terra dos pais que diz adorar, que também vê como sua e que visita "todos os verões para ver a família" porque Portugal está-lhe "no sangue".