«A nova Amália é o Camané!» (vídeo)
Público rendeu-se à voz de Camané na noite de apresentação de «Sempre de Mim» no Coliseu de Lisboa
Por: Redacção/ João Carneiro da Silva | 2008-05-17 03:33Noite de fado no Coliseu dos Recreios. Noite de emoção, de sentimento, de saudade. Noite de Amália, Marceneiro e Carlos
do Carmo. E noite de estreia também, de Camané, em nome próprio, na mítica sala de espectáculos lisboeta.
Casa cheia
para a apresentação do mais recente disco, «Sempre de Mim», de um dos nomes incontornáveis do fado das últimas décadas. Perante
uma parafernália de câmaras de filmar, provavelmente para a gravação de um futuro DVD, Camané apresentou-se em palco juntamente
com José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença, na guitarra clássica, e Paulo Paz, no contrabaixo.
De
fato preto e camisa branca, como mandam as «regras», Camané surgiu sentado numa cadeira, quase no fundo do palco, o que infelizmente
determinou que fosse impossível vislumbrar o fadista desde os camarotes laterais. «Sei De Um Rio» foi o ponto de partida de
uma viagem pelo fado, pela obra de Camané, pelas suas referências, pelos seus companheiros de palco e de estúdio.
Voz irrepreensível
O
público rendeu-se à voz irrepreensível de Camané e ao som quente do trio de cordas. As ovações sucederam-se, muitas delas
sem quase deixar terminar os últimos acordes, os últimos versos, em plena celebração de uma carreira respeitável e que começou
a tomar forma em 1979, quando Camané venceu a Grande Noite do Fado com apenas 12 anos.
E foi com a alma que se lhe
reconhece que cantou poemas de Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, Fernando Pessoa, Luís de Macedo ou Manuela de
Freitas, pintando expressivas telas de amor e de saudade.
E no entanto, apesar da segurança da voz, da presença que
irradia fado, Camané é humano, humilde e honesto. Na primeira abordagem à assistência, agradecendo os aplausos um sem número
de vezes, confessou o nervosismo próprio de alguém que tem a consciência de um momento que certamente marcará a sua carreira.
«É um prazer enorme estar nesta sala», anunciou, sorrindo. Mais tarde, viria a pedir desculpas pelos agradecimentos improvisados
que terão deixado de fora alguns dos muitos nomes que contribuiram para «Sempre de Mim», disco de Ouro e que se estreou no
primeiro lugar do top de vendas em Abril.
Carlos Bica juntou-se à festa
O convidado especial da noite
foi o contrabaixista Carlos Bica, que acompanhou Camané em «Este Silêncio» e «Asas Fechadas» (do reportório de Amália Rodrigues),
e que interpretou ainda, juntamente com o trio Neto/Proença/Paz, uma peça instrumental que arrecadou uma das ovações da noite.
Outro
dos momentos do espectáculo foi, sem dúvida, «Sonhar Durante O Fado», tema integrante do último disco de Camané. O seu autor,
Sérgio Godinho, marcou presença na assistência, sentado ao lado de Carlos do Carmo, e Camané não quis deixar escapar a oportunidade
de fazer um agradecimento especial.
Camané falou também das suas principais referências: «Carlos do Carmo, Amália
e Alfredo Marceneiro». Lembrou os seus tempos de adolescente e destacou um dos seus fados preferidos: «Fado Cravo», de Marceneiro.
O mote para «Triste Sorte», um poema de João Ferreira Rosa, e um dos temas mais aplaudidos.
Final a capella
As
ovações de pé foram inevitáveis à medida que o espectáculo, com direcção musical de José Mário Branco, se aproximava do final,
já bem para além dos 24 temas previstos originalmente. «Complicadíssima Teia», cantado a cappella, deslumbrou os presentes,
gente de todas as idades, e encerrou uma noite de celebração do fado e de um dos seus melhores intérpretes.
À saída
do Coliseu, feita a passo lento, perdia-se a conta ao número de elogios a Camané. Enaltecia-se-lhe a voz, a humildade, a paixão.
E, quase em jeito de desabafo, alguém disse: «Qual Mariza, qual carapuça. A nova Amália é o Camané!».

