Apresenta-se como "um rapaz que faz musica eletrónica, com influências rock" e que optou por criar uma carreira a solo depois de se ter iniciado nos Vicious Five. Em entrevista à TVI24, Xinobi, o alter-ego de Bruno Cardoso, contou que nunca quis corromper a pureza da banda e que já adora tocar no país que o viu nascer.

Não fazia sentido absolutamente nenhum [juntar eletrónica aos Vicious Five]. Porque há coisas que não se devem misturar. Ali naquela banda, a pureza daquela banda eram as guitarras ligadas a amplificadores, a bateria, era ser assim, nunca quis sequer, da minha parte, dizer: 'E se a gente fizesse assim uma coisa…' Acho que isso era horrível", explicou.

Considerado um nome importante no panorama da música eletrónica nacional, o músico apresentou o seu álbum de estreia - 1975 - em 2014 e subiu ao palco Nos Clubbing do Nos Alive no primeiro dia do festival para apresentar não só o seu álbum a solo, como para apresentar temas como "See Me", que contou com a colaboração de Lazarusman.

A colaboração surgiu graças à ousadia de Xinobi, que decidiu enviar uma música para "o outro lado do mundo" a tentar a sua sorte.

Foi uma das poucas pessoas com quem colaborei do outro lado do mundo. Ele é sul-africano. Eu mandei-lhe uma música do género: 'Isto não vai correr bem se calhar, mas eu adoro tanto o que ele faz que vou tentar'. Ele demorou imenso tempo a responder e eu já estava naquela 'okay, azar, esquece lá isso'. Depois responde-me e manda-me uma gravação e eu fiquei tipo 'uau, está bem'".

No entanto, colaborações é um tema recorrente na carreira musical de Bruno Cardoso, que em 1975 convidou vários amigos para cantarem no álbum.

São pessoas de quem eu gosto, em quem confio e que estão próximas de mim. E às vezes as pessoas pensam: 'vou ter alguém a colaborar, pensam sempre na pessoa que está mais longe possível'. Não é preciso, tenho aqui esta rapariga [Margarida Encarnação que colaborou na música "Mom and Dad"] que canta tão bem. Ela canta tão bem, o que é que eu vou fazer? Procurar uma vocalista no Brasil? A não ser que seja alguém que possa trazer algo muito especial, mas mesmo assim, não sei. Eu gosto de trabalhar com quem tenho proximidade, com quem confio."

E foi por confiar na cantora lírica que Bruno Cardoso teve à vontade para lhe pedir que "desaprendesse" um bocado durante as gravações de "Mom and Dad".

Tive de lhe pedir para ela desaprender um bocado. Ela é cantora lírica e ela trouxe a história toda para uma escola que não é dela. Então, tive de lhe dizer 'tens de desaprender só um bocado, imagina que cantas um bocadinho pior'. E ela ficou a olhar para mim do género 'mas como é que isso se faz?'. Então disse-lhe 'encosta-te à parede e canta' e ela encostou-se e a coisa saiu assim um bocadinho 'menos perfeita' e mesmo assim muito perfeitinho".

Perfecionista. Será essa talvez a palavra que melhor descreve o trabalho de Xinobi que, depois de ter tocado com Vicious Five e colaborado com Moulinex - com quem continua a tocar quando as agendas são compatíveis -, confessa que tocar sozinho lhe dá outra liberdade na criatividade, nem que isso implique mudar tudo o que já fez [já lá vamos]. Até porque, tocar sozinho faz com que não esteja dependente daquilo "que outra pessoa gosta".

A cena boa de ser sozinho é que eu posso fazer o que eu quiser e quando há mais pessoas tens que gerir um bocado o que tu gostas muito com o que outra pessoa gosta".

"Antigamente, não gostava tanto de tocar em Portugal"

A pureza ficou com os Vicious Five, a eletrónica veio com Bruno Cardoso e há muito para mostrar a quem se rendeu aos encantos da música eletrónica e não só. O concerto agendado para a tarde de quinta-feira era, segundo o músico, "como o de uma banda de rock - é um DJ set com cinco músicos por cima" e cativou as centenas de pessoas que se encontravam frente ao palco do festival.

Apesar de muitas vezes se ter sentido perdido a atuar em festivais, o artista diz agora que tudo depende do público que se encontra pela frente.

Depende, como às vezes o público é um bocadinho aleatório que é difícil de perceber. Por exemplo, num palco grande, as pessoas não se consegue perceber muito bem se estão a sorrir, se estão a apanhar seca. Mas, quando corre bem num festival, é impagável. Da mesma forma que quando corre bem num espaço mais pequeno e tens as pessoas “aqui” à tua frente, também é impagável".

E esse "aqui" pode acontecer quer em Portugal, quer no estrangeiro, porque o receio de atuar em terras lusas desapareceu.

Eu ando a adorar tocar cá agora. Antigamente não gostava tanto. Tinha mais receio, principalmente quando saia de Lisboa porque as pessoas estavam mais habituadas a um som mais comercial e agora já há uma abertura maior. Eu tinha medo de sair de Lisboa ou do Porto. Tinha receio de ir tocar a Castelo Branco e tinha medo de tocar uma música mais difícil e tipo as pessoas ficaram naquela 'não quero. Agora não tenho”. 

Na calha está agora a produção do novo disco, "assim um bocado na mesma onda que este teve", que deverá sair no início do próximo ano.

Em janeiro. Ou fevereiro. (...) Sou muito… vou para o estúdio e é o que vai saindo. Mas às vezes sai uma coisa completamente diferente do que tenho e eu penso “mas isto é muito melhor do que o que eu tenho aqui” e vou mudar tudo o que já tenho. (...) Depende se eu pensar um bocadinho demais. Se eu pensar demais, sai em fevereiro. Se eu pensar de menos, sai em janeiro".