Numa altura em que as principais casas de apostas davam quase como certo a atribuição do Nobel da Literatura ao escritor queniano Ngugi wa Thiong’o, o anúncio surpreendeu tudo e todos: Bob Dylan.

Expressões de espanto soaram na sala da Academia Sueca, em Estocolmo. Na lista da Ladbrokes, em Londres, que em 2015 acertou na atribuição do prémio à bielorussa Svetlana Alexievitch, a probabilidade de Dylan ser distinguido era de 17/1.

O cantor era, portanto, uma carta quase fora do baralho, mas a explicação chegou, logo de seguida, pela voz da secretária-geral da Academia, Sara Danius: Dylan foi distinguido por "ter criado novas expressões poéticas no âmbito da música norte-americana".

O compositor e cantor de 75 anos é, por isso, o primeiro cantor a receber um Nobel da Literatura e o primeiro americano em mais de duas décadas. Um sinal dos tempos talvez, já que a Academia Sueca comparou mesmo as canções de Dylan às obras de Homero e Safo.

Nascido a 24 de maio de 1941, em Duluth, no Minnesota, como Robert Allen Zimmerman, Dylan cresceu no seio de uma família judaica de classe média. Aprendeu sozinho a tocar harmónica, guitarra e piano.

Foi depois da faculdade, no início dos anos 60, quando se mudou para Nova Iorque, que se tornou famoso.

Na adolescência tocou em várias bandas e com o tempo o seu interesse na música aumentou, especialmente pelo 'folk' e 'blues' norte-americano.

Um dos ídolos de Dylan era o cantor de música 'folk' Woody Guthrie, e também foi muito influenciado pelos autores da chamada 'Geração Beat', bem como pelos poetas modernistas.

Muitas das obras de Dylan centram-se nas condições sociais, humanas, religião, política e amor e as suas letras têm sido continuamente publicadas em novas edições, sob o título 'Lyrics'.

Depois de um encontro com o produtor John Hammond, assinou um contrato para o álbum de estreia, chamado 'Bob Dylan' (1962). Mas foi no segundo trabalho, “The freewheelin’ Bob Dylan”, em 1963, que revelou o seu talento como compositor.

Nos anos seguintes, gravou vários álbuns que tiveram grande impacto na música popular: 'Bringing It All Back Home' anda 'Highway 61 Revisited', em 1965, 'Blonde On Blonde', em 1966 e 'Blood On The Tracks', em 1975.

Dylan continuou a produzir nas décadas seguintes alguns dos que são considerados os seus melhores trabalhos: 'Oh Mercy' (1989), 'Time Out of Mind' (1997) e 'Modern Times' (2006).

As digressões do músico em 1965 e 1966 atraíram enorme atenção e durante um largo período foi acompanhado pelo realizador D.A. Pennebaker, que documentou a ação em torno do palco naquele que viria a ser o filme 'Don't Look Back' (1967).

Além da produção de álbuns, Dylan publicou alguns trabalhos experimentais como 'Tarantula' (1971) e a coleção 'Writings and Drawings' (1973).

Em 2004, escreveu a autobiografia 'Chronicles', sobre os anos em Nova Iorque e sua vida no centro da cultura popular.

Desde o final da década de 1980, Bob Dylan tem efetuado várias digressões, no âmbito do 'Never-Ending Tour'. Além da música, Bob Dylan pinta e escreve argumentos.

Conquistou dez Grammy e foi ainda eleito pela revista americana Rolling Stone o segundo melhor artista de todos os tempos, apenas atrás dos Beatles.

Seis concertos e umas férias em Portugal

O músico deu seis concertos em Portugal, os primeiros em 1993, no Porto e em Lisboa, e o último em 2008, em contexto de festival, em Algés.

A estreia em palcos portugueses aconteceu em julho de 1993, no Coliseu do Porto e no Pavilhão de Cascais, com Sérgio Godinho e a norte-americana Laurie Anderson a assegurarem a primeira parte de ambos.

"No Porto, Bob Dylan chegou a passear sozinho pelas ruas da cidade, acompanhado apenas por um segurança". No concerto em Cascais, "apresentou versões praticamente irreconhecíveis das suas melhores canções", escrevia a agência Lusa na altura.

O autor de "The times they are a-changing", "Like a rolling stone" e "Just like a woman" regressou depois, em abril de 1999, novamente para dois concertos no então Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e novamente no Coliseu do Porto, na abertura de uma nova digressão europeia.

A agência Lusa escreveu então que Bob Dylan, "porta-voz da geração rebelde dos anos 60", atuou em Lisboa para "cerca de cinco mil pessoas que aplaudiram emocionadamente".

Visivelmente satisfeito, com o suor correndo pela cara, Bob Dylan chegou a bambolear o corpo em solos de guitarra e nunca se zangou com os músicos", lê-se na notícia.

Em julho de 2004, apresentou-se em Vilar de Mouros e, quatro anos depois, no festival Nos Alive, em Algés, para cerca de 20 mil pessoas.

Durante toda a actuação, foram poucas as vezes que se virou para a audiência e só comunicou com o público quase no final do concerto. O único momento de grande comunhão com a audiência ficou reservado para essa altura, com a interpretação do clássico 'Like a Rolling Stone', que Dylan compôs em 1965", escreveu a Lusa.

A estreia de Bob Dylan em palcos portugueses deu-se em 1993, mas o músico tinha estado antes em Portugal, em 1965, com Sara Lownds - com quem casaria nesse ano -, imediatamente após o rompimento com Joan Baez.

De acordo com a biografia "Behind the shades", de Clinton Heylin, Bob Dylan esteve de férias em Portugal e, quando regressou a Londres, teve de ser hospitalizado por causa de uma intoxicação alimentar. Durante a recuperação, Bob Dylan escreveu 'Like a rolling stone'", uma das suas canções mais conhecidas.

Em 1976, Bob Dylan incluiu no álbum "Desire" a música "Sara", no qual tem uma referência a "beber rum num bar em Portugal".

Estão publicados em Portugal dois livros com letras de canções de Bob Dylan, que abrangem os álbuns publicados entre 1962 e 2001, pela Relógio d'Água ("Canções I e II"), enquanto o primeiro - e único, ainda - volume da autobiografia de Bob Dylan, "Crónicas", saiu pela Ulisseia, do grupo Babel, na coleção Afluentes da Memória.

Em 2007, a Quasi Edições publicou o livro de ficção "Tarântula", prosa-poema experimental de 1966, altura em que Bob Dylan editou o álbum "Blonde on Blonde" e teve um acidente de moto, que o obrigou a um período de recuperação.

Em 1993, a editora Fora de Texto, de Coimbra, publicou "No vento que passa", com poemas de Bob Dylan, com tradução de Graça Nazaré.

Figura incontornável da música popular norte-americana, é o primeiro compositor a receber o prestigiado prémio da literatura, com um valor monetário de 822 mil euros.

O artista de 75 anos vai receber o prémio em Estocolmo, na Suécia, a 10 de dezembro.