Crise económica afeta o «querido mês de agosto»

Quim Barreiros e Emanuel admitem que têm vindo a diminuir os cachets nas festas de verão

Por: Redacção/ | 2012-07-30 09:51
Você na TV: Quim Barreiros interpreta «Dar ao apito»

O mês de agosto está próximo e com ele o calendário mais intenso de espetáculos de música popular pelo país, mas este ano a crise sente-se com maior impacto, admitiram músicos e agentes à agência Lusa.

«Fazem-me essa pergunta todos os anos. Não é de agora, mas faz-se o seguinte: Em vez de receber dez, recebo seis e baixa-se a bolinha. Está difícil, a concorrência não ajuda, mas tem de se andar para a frente», afirmou o músico Quim Barreiros.

Porém, o acordeonista minhoto, de 65 anos, que anda há quase 40 a cantar músicas populares, admite que não se pode queixar muito da crise, porque vai tendo a carteira de espetáculos preenchida, a partir da Páscoa até ao final do verão.

Só em agosto, o mês mais forte com espetáculos de rua promovidos por autarquias e comissões de festas, Quim Barreiros terá «vinte e tal festas».

Para grande parte delas, a equipa que o acompanha tem quatro músicos «que fazem tudo, tocam, carregam equipamento, conduzem». E há um pormenor que faz a diferença: Quim Barreiros só atua depois de ser pago. Em dinheiro.

«Eu sei que há dificuldades, que há artistas que deram o salto e depois escorregaram. Eu tenho-me mantido naquela mediazinha. Mas sabe, o sistema bancário é o grave problema; e sobre isso da crise culpa-se este e aquele, mas a culpa é de todos nós», disse.

Emanuel, de 55 anos, outro dos músicos de sucesso da música mais popular, dita «pimba», disse à Lusa que «a crise chegou aos espetáculos e os cortes são óbvios» e que há artistas com dificuldades, mas que não querem reconhecê-lo publicamente.

«Se eu estivesse em dificuldades também iria omitir, porque os artistas estão esperançados que isto passe», disse.

O músico de «Pimba Pimba» e «O ritmo do amor», que terá em agosto 15 concertos e cerca de dez presenças em discotecas, explicou que mantém o mesmo cachet há três anos, cujo valor «é moderado para o tipo de espetáculo».

O promotor Lino Santos fundou há um ano na Mega Agência, uma agência que trata de todos os aspetos de produção e logística de um espetáculo a quem o contrate, afirmou à Lusa que «há muito artista com falta de trabalho e que não dá a cara para não prejudicar a carreira».

Os artistas «tiveram que fazer ajustamentos nos cachets, os municípios que tinham poder de compra cortaram-se. A crise não é regional, é nacional», disse. Ainda assim, Lino Santos admitiu que este primeiro ano da empresa foi positivo, dado o alargado leque de artistas com que trabalha.

Do lado de quem contrata, sobretudo ao nível das entidades autárquicas, também se registam cortes no investimento, que afetam as atividades culturais e recreativas. É o caso da câmara municipal do Crato, que organiza anualmente a feira de artesanato e gastronomia, e que nos últimos anos tem investido num cartaz de espetáculos com vários nomes internacionais.

Este ano, entre 29 de agosto e 1 de setembro, optaram por contratar apenas artistas portugueses, como Amor Electro, Sétima Legião, Buraka Som Sistema, Dead Combo, Pedro Abrunhosa e Boss AC.

«Uma noite equivale mais ou menos à contratação de uma banda internacional [de anos anteriores]. Houve uma redução dos valores de investimento, mas tenho dúvidas que uma empresa privada apostasse no interior. O Crato não tem praia», explicou à Lusa Luís Pragana, da autarquia.

Segundo o responsável, uma localidade com 3.700 habitantes recebe, durante a feira, 45 mil visitantes, cuja presença tem repercussão na hotelaria e na restauração.

«Obrigatoriamente houve renegociação de cachets, mas há duas ideias que têm passado que eu discordo: Que é preciso parar o investimento e que este não pode ser público, tem que se privado. A atividade cultural é importante como fator de desenvolvimento», referiu.

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