O catedrático da Universidade de Santiago do Chile, Miguel Ángel Vera, defende que o fado está nas origens de géneros musicais sul-americanos como o tango, bolero e outras canções portuárias.

O que se deu foi «uma miscigenação entre o fado e os géneros musicais locais», que aconteceu entre finais do século XIX e princípios do século XX, através do tráfego marítimo mercantil, devido ao papel de marinheiros portugueses, que viajavam muitas vezes com uma guitarra portuguesa, explicou à Lusa o investigador chileno.

«O fado e as nossas músicas sul-americanas são família, daí eu falar antes em encontros da família», rematou.

Miguel Ángel Vera vai estar em Lisboa esta semana para participar em várias iniciativas, entre as quais a apresentação de um disco de inéditos de Amália Rodrigues, resultado da sua própria investigação, na América Latina.

Na terça-feira participa num jantar-conferência, no Forte do Bom Sucesso, com o Duo Pianordeão, constituído por Daniel Schvetz (piano) e Pedro Santos (acordeão). No dia seguinte, numa tertúlia, às 21:00, organizada pela Associação Portuguesa dos Amigos do Fado.

Na quinta-feira, às 18:00, no restaurante Maria da Mouraria, em Lisboa, faz a apresentação do CD «Amália de Porto em Porto», constituído por 16 gravações inéditas de Amália Rodrigues, no México, que o investigador resgatou de diversos arquivos, nomeadamente das emissoras de rádio.

Na sexta-feira, às 21:00, profere uma palestra na Casa dos Açores, à Lapa, em Lisboa. O catedrático apresenta também uma conferência no sábado, às 19:30, no Palácio Egipto, em Oeiras, no âmbito das Festas do Concelho. Ángel Vera receberá, na ocasião, o Diploma de Mérito da Câmara, entregue pelo seu presidente, Paulo Vistas.

No domingo, às 20:00, encerra esta série de apresentações, sobre «o género musical portuário», com um convívio, no restaurante A Muralha, em Alfama, organizado pela Tertúlia Fado na Tasca.

A investigação sobre o «género musical portuário» começou a partir de conversas entre Ángel Vera e Amália Rodrigues, pelo facto de a fadista apresentar, no seus espetáculos, a «ranchera» «Fallaste Corazón», de Cuco Sánchez, como «um fado mexicano».

«Eu interroguei-a sobre qual a razão, e ela disse-me: "é em espanhol mas é um fado", e daí parti para a pesquisa científica e encontrei muita coisa interessante, que levou à teoria do "género musical portuário"», contou.

Nos arquivos da UNESCO, na Argentina, Ángel Vera encontrou o registo dos passageiros e tripulantes dos navios mercantes que entre 1880 e 1930, tocaram portos sul-americanos, vindos da Europa.

«Cerca de 28% das tripulações eram portuguesas. Este dado foi o principal para iniciar a teoria. Pois antes de existir o canal do Panamá os barcos faziam uma longa travessia, sendo os principais portos Veracruz, no México, Santiago, em Cuba, Buenos Aires, na Argentina, Valparaíso, no Chile, Callao, no Peru, e Guayquil, no Equador».

«É nestes portos que se encontra o género musical portuário, onde existem as músicas que são similares ao fado e que darão origem a outros géneros como o tango, a cantiga "cebola" - como dizemos em Valparíso, porque faz chorar -, a cantiga criolla, no Peru, o bolero catinero, do Equador, a ranchera, do México, e, depois de um certo desenvolvimento, o bolero cubano».

Estas canções urbanas, referiu o investigador, têm um compasso binário, tal como o fado, enquanto as canções do campo têm um compasso trinário, «e é curioso que as pessoas do campo, quando vêm para a cidade passam a cantar as cantigas do género portuário e, até nas de embalar, adotam o compasso binário».

Para o investigador, a influência do fado em algumas canções sul-americanas «é parte de um diálogo que começou com os marinheiros portugueses, e que continuou com o aparecimento do disco, e Amália Rodrigues, sem o saber, deu o seu contributo. Hoje há uma fusão interessante, em que os novos [músicos] estão à procura das guitarras portuguesas para tocar bolero e tango».