Andrew Bird foi homem-orquestra em Lisboa (vídeo)

Cinema São Jorge voltou a ter lotação esgotada na apresentação do novo álbum «Noble Beast»

Por: João Carneiro da Silva/ | 2009-05-26 04:11

Segunda noite, segunda enchente. O Cinema São Jorge, em Lisboa, voltou a receber o norte-americano Andrew Bird esta segunda-feira depois de um primeiro concerto no domingo. O cantautor de Chicago confessou-se inspirado pelo espectáculo de fado a que assistiu na noite anterior (numa casa de fados lisboeta, após o concerto) e voltou a maravilhar uma plateia que o acarinhou mesmo antes de ele soltar uma única palavra.

Com um andar desengonçado, cabelo desalinhado e olhar tímido ao vislumbrar a sala completamente cheia de público, Andrew Bird entrou em palco onde o esperavam um xilofone, uma guitarra eléctrica, um violino e (talvez a peça mais importante do puzzle) dois pedais de loop capazes de gravar pequenos trechos musicais e reproduzi-los de imediato. Bird supera a definição de one man band, tornando-se assim em one man orchestra.

Canções cozinhadas ao vivo

E foi com estes ingredientes que Andrew Bird começou por cozinhar a base de cada canção apresentada no São Jorge, qual mestre de sushi que prepara as mais variadas iguarias exóticas perante o olhar atento dos comensais.

Na pequena pausa entre o transformar do instrumental «The Water Jet Cilice» em «Self-Torure», o músico tira as botas e, no conforto das suas meias de algodão, comanda com mestria (e com os pés) loop atrás de loop atrás de loop... Gravados e depois reproduzidos através do duplo gramofone branco, cuja base serve também de repouso para o único companheiro de Bird em palco: um macaco de peluche (um sock monkey mais exactamente) de fato cinzento, tal qual o seu dono.



Figura frágil, voz segura

A melodia do violino e do assobio que o acompanha e o poder e calor de uma voz forte e segura conquistaram a plateia bem antes de Andrew Bird se apresentar formalmente com um «boa noite» já calejado pelas anteriores passagens do norte-americano por Portugal. Ainda assim, o sorriso tímido e a forma atrapalhada como falou sempre que se dirigia ao público valeram-lhe risos e gargalhadas simpáticas por parte de velhos e novos fãs.

Foi quase sempre de olhos fechados que Andrew avançou destemido tema após tema. Os instrumentos, verdadeiros apêndices/extensões, falaram por si ao longo de hora e meia de espectáculo. O mago dos loops dedilhou o violino em «Sovay» e «A Nervous Tic Motion of the Head to the Left», resgatados do segundo disco a solo «The Mysterious Production of Eggs», de 2005, antes de mergulhar ainda mais fundo na sua discografia até ao último trabalho com os Bowl of Fire (em 2001) num teatral e dramático «Why?».

«Tenuousness» inspirada em Lisboa

Do novíssimo «Noble Beast», Andrew Bird trouxe-nos «Natural Disaster», «Fitz and the Dizzyspells» (em «estilo rock 'n' roll» e que saiu melhor do que o músico esperava), «Tenuousness» (inspirada na vista de um miradouro sobre Lisboa e o rio Tejo), «Anonanimal», «Oh No» e «Effigy».

«Tables and Chairs» foi o tema escolhido para fechar o concerto, já depois de duas saídas de palco com direito a ovação em pé. Timidamente agradecendo os aplausos com uma vénia, o norte-americano pegou nas suas botas e no fiel companheiro símio e saiu pela última vez de cena.

O Theatro Circo, em Braga, recebe esta terça-feira o derradeiro espectáculo desta mini-digressão de Andrew Bird por Portugal, mas fica a certeza de que regressará numa próxima ocasião ao país que tão carinhosamente o acolhe e inspira.

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