O duplo CD «Amália no Chiado», editado esta semana, reúne as primeiras gravações da fadista na discográfica, «antes das efetuadas em Abbey Road», em Londres, disse à Lusa o coordenador da edição, Frederico Santiago.

O duplo CD inclui 46 temas, entre os quais sobressai o inédito «Fado Lamentos», com letra e música da própria Amália, um excerto do «Fado Hilário», com letra e música atribuída a Hilário, cantor de Coimbra, natural de Viseu, que foi amigo, entre outros, do poeta João de Deus, referiu Frederico Santiago à Lusa.

Referindo-se ao «Fado Lamentos», Frederico Santiago afirmou que foi possível atribuir a autoria graças ao investigador Vítor Pavão dos Santos, «que se lembrava de Amália o referir em conversas» e, por outro lado, este fado «era um dos complementos cinematográficos realizados por Augusto Fraga em 1947, cuja imagem se perdeu, mas o som existe no arquivo do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, e foi encontrado um prospeto anunciando o filme que se exibia, e como complemento este fado, atribuindo a autoria a Amália Rodrigues».

«Esta gravação do Chiado foi feita durante um ensaio e Amália nunca voltou a gravá-lo. Já o Fado Hilário, Amália gravou-o em 1952, em Abbey Road, mas com outra letra», rematou.

Das gravações agora disponíveis em CD, consta a única gravação conhecida da canção «La Vie en Rose», de Edith Piaf, com quem Amália partilhou cartaz em Nova Iorque, ao lado de Marlene Dietriche. O CD inclui também parte do ensaio que antecedeu a gravação desta canção.

Outra raridade é a única gravação de «A minha canção é Saudade», numa melodia de Franklin Godinho. Amália gravou estes mesmos versos, posteriormente, com uma melodia de Frederico de Brito.

Gravações únicas são várias neste CD, algumas em espanhol como «Dolores, la petenera» e «Tres palabras».

Este duplo CD faz parte de um projeto de sistematização da obra de Amália, que o investigador Frederico Santiago tem estado a levar a cabo.

Santiago tinha já sido responsável pela reedição, em 2010, do álbum «Com que Voz», no qual incluiu uma entrevista da fadista, e versões de alguns dos temas, antes da escolha final para o álbum que ganhou vários prémios europeus.

Santiago destacou nesta edição, a primeira gravação do «Fado Primavera», de David Mourão-Ferreira, no Fado Pedro Rodrigues, que Amália voltou a gravar em 1965, que faz parte do álbum «Segredo», e em 1966, que incluiu no álbum «Fados 67». Está também publicada uma versão ao vivo no Café Luso, em Lisboa, em 1955.

«Nestes CD há muito repertório de Linhares Barbosa, um poeta do fado, com uma escolha cuidada de Amália, que se nota ao ter também integrado nestas mesmas sessões de gravação poemas de Sidónio Muralha, ‘Amantes Separados’, Pedro Homem de Mello, ‘Fria Claridade’ e Mourão-Ferreira».

"«Por exemplo, o fado conhecido como 'Minha mãe, minha mãe', de Linhares Barbosa, o seu título é 'Perdição'. Esta é uma das muitas curiosidades», disse.

Referindo-se a «Amália no Chiado», Frederico Santiago realçou «as inúmeras versões inéditas de fados que Amália interpretou e fazem parte de discos posteriores, algumas delas melhores do que as gravadas em Abbey Road, pois o técnico de som foi o Hugo Ribeiro, que Amália apontava como aquele que melhor a sabia gravar».

«Este CD testemunha, assinalou Santiago, o encontro entre a voz de Amália e Hugo Ribeiro, o técnico de som da casa», frisou.

As gravações, agora vindas à luz do dia, realizaram-se numa sala no segundo piso da loja da discográfica, na rua Nova do Almada, em Lisboa, entre 1951, antes das gravações nos estúdios londrinos de Abbey Road em 1952 e 1953.

A fadista é acompanhada, em alguns temas, pelo Conjunto de Tony Amaral, nomeadamente na canção «Quando a Noite Vem», uma versão em português de David Mourão-Ferreira do tema «City Lights» (1931), de Charles Chaplin e, entre outros, pelos guitarristas Raul Nery, Jaime Santos e o violista Santos Moreira.

Frederico Santiago realçou que «é assinalável a diferença de qualidade, mesmo depois do natural envelhecimento das fitas, entre estas gravações e as de Londres».

O coordenador da edição afirmou que «todas as gravações foram recuperadas a partir das bobinas originais e, no seu restauro, não foram usados processos extremos que afetassem a transparência musical, mesmo ouvindo-se algumas imperfeições inerentes aos mais de 60 anos passados desde a data de gravação, provenientes da bobine. Daí ter-se optado por manter um volume geral que não obrigasse a nenhuma compressão e não potenciasse as distorções existentes nas bobinas originais». A remasterização, sob supervisão de Santiago, é de Paulo Jorge Ferreira.