Já é 2016?

The 1975, Biffy Clyro, Robert Plant, Pixies e The Chemical Brothers. Se retirarmos os primeiros, o alinhamento pode parecer de há 10 anos, até 20, se ignorarmos que os segundos só conheceram o “boom” do sucesso na última década, mas não, esta é mesmo a composição do primeiro dia de NOS Alive 2016. Mas não se deixe enganar pela aparente direção do texto. Não há nada de errado com isso, pelo contrário. Que bela forma de marcar o arranque da 10.ª edição do festival.

Um dia dedicado ao rock, ao novo e ao antigo, que juntou ainda a eletrónica para desenjoar os ouvidos das guitarras.

Eram 18:00. Os L.A. já tinham dado o tiro de partida e deixado o palco Heineken para os portugueses The Happy Mess, e os Nudozurdo tinham feito o mesmo pelo DJ e produtor Xinobi – que esteve à conversa com a TVI24 momentos antes do concerto – no palco Clubbing, quando os ingleses The 1975 subiram ao palco principal. Uma banda ainda jovem, a mais jovem que passaria por ali, que veio apresentar “I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it”, o segundo álbum, lançado em fevereiro.

Perante uma plateia que não era ainda metade do que viria a ser, os britânicos iniciaram aquilo que seria a tendência do resto do dia (e da noite): uma seleção de bons acordes, aliados a uma boa voz, que conseguiu focar os olhares longe de tudo o que eram outras atrações durante cerca de uma hora. Os momentos marcantes foram mesmo ao início e ao fim da atuação, quando o grupo tocou "Love Me" e "Sex", respetivamente. O primeiro tema é o single de estreia do novo álbum, o segundo o do anterior.

Pausa no Passeio Marítimo de Algés. Não muito longa, apenas para sentar um pouco, porque os ânimos estavam prestes a aquecer. Cerca de 25 minutos após a saída da banda mais jovem surgem em palco os Biffy Clyro, mal sabia a audiência que vinha aí um furacão.

O sucesso é recente, chegou sensivelmente com os últimos três álbuns, mas atenção: estes três “rapazes” andam nisto há 20 anos, e isso viu-se. Não fossem as bandas seguintes nomes incontornáveis da música, e esta teria sido a melhor atuação do palco principal. A mais ruidosa foi certamente, a mais energética também, mas quando se antecede Robert Plant (já lá vamos) não é fácil.

O concerto arrancou com “Wolves of Winter”, música nova, saída do fresquíssimo sétimo álbum “Ellipsis”, que sai amanhã, e que teve uma espécie de antestreia aqui em Lisboa. Um álbum que marca um período de “rejuvenescimento da banda” – disseram-nos dois dos membros em entrevista, durante a tarde -, evidente aqui no Passeio Marítimo de Algés. Sim, porque de cansaço nem sinal.

Nem deles nem do público, especialmente do estrangeiro. Entre eles muitos britânicos, que mostravam saber as letras de trás para a frente, e o instrumental ao pormenor, reconhecendo na perfeição os momentos onde era altura de saltar em grupo. Vale destacar o particular entusiasmo demonstrado quando o grupo tocou “Machines”, “Animal Style”, outro dos temas do novo álbum, e durante a penúltima da atuação “Many of Horror”.

Sensivelmente uma hora de espetáculo de deixar a cabeça à roda, mas não demasiado, porque ainda era demasiado cedo para ir embora. Os Biffy Clyro abandonam o barco e entregam o leme ao capitão e seus marujos, Robert Plant & The Sensational Space Shifters. Sim, capitão, porque a atuação da noite foi mesmo dele.

As gerações mais recentes, ou os desinteressados do Rock, talvez não atribuam grande importância ao nome Robert Plant. A história será diferente se esclarecermos que se trata do ex-vocalista dos lendários Led Zeppelin, uma das maiores bandas de rock de sempre. Muitos dos fãs de Plant, até, não conhecerão a maioria do seu reportório a solo – mesmo que os anos de carreira já ultrapassem os do grupo – e continuarão a vê-lo, para sempre, como a voz de "Stairway to Heaven". Para esses, há boas notícias, Plant também não esquece os Zeppelin, e mais de 30 anos depois do fim da banda, continua a levar os grandes temas do grupo para o palco.

“Baby, I’m Gonna Leave You”, “Black Dog” e "Whole Lotta Love" são alguns desses exemplos, e também hoje se ouviram em Lisboa. Sempre com um toque “pessoal”, com a ajuda dos Sensational Space Shifters – o grupo que o acompanha – soam diferente daquilo que se ouvirá num disco ou num vídeo de uma atuação de Zeppelin, mas carregam tal nostalgia, que podiam ser mais diferentes ainda e ninguém se atraveria a contestar. É uma lenda viva no palco, não há que reclamar.

Os temas com os Space Shifters não servem, de todo, apenas para preencher espaços de músicas de Zeppelin, mas são sem dúvida mais “apagados”, principalmente se olharmos para o entusiasmo que provocam no público. Se bem que, vale a pena referir, muitos dos jovens pareciam desconhecer a figura em palco. E por falar na figura, Robert Plant mostrou que ainda está à altura dos elogios que lhe traçavam na década de 70: os agudos difíceis de atingir ainda estão ao alcance do músico britânico.

Desengane-se, no entanto, quem acha que Plant era o único em forma esta noite. Após o concerto, e a pausa de cerca de 20 minutos, entrava em palco outro nome pesado da música rock: os Pixies.

Pelo palco Heineken já tinham passado, entretanto, Vintage Trouble e John Grant. No palco Clubbing, Bob Moses e Branko também já tinham dado cartas. Atuavam naquele momento Wolf Alice e SG Lewis nos palcos mencionados, respetivamente, mas a maioria dos festivaleiros queria ver Pixies. Foram bem visíveis, a partir do primeiro andar da sala de imprensa, as centenas de pessoas que passaram em passo acelerado quando se ouviram os primeiros acordes tocados pelos norte-americanos.

Black Francis e companhia cumpriram com os fãs e entregaram um bom concerto. Ainda que a voz de Francis tenha tido altos e baixos durante a atuação, está longe de poder ser criticada após tantos anos de estrada. É uma pena que não a tenha usado para comunicar um pouco com a audiência, entraram e saíram sem se dirigir ao público por palavras, a única “falha” – se é que lhe podemos chamar isso – do concerto.

“Where is my Mind” e “Here comes your Man” foram, claramente, os pontos altos da noite, das poucas alturas em que se ouviu o público em uníssono e um aplauso geral.

Terminavam, assim, as “prestações rock” no palco principal, passando o testemunho para o palco Heineken, onde atuariam Sean Riley & The Slowriders, que, por sua vez, se seguiram a Soulwax. No palco principal o final da noite estava reservado para a eletrónica, pela mão dos veteranos The Chemical Brothers.

“Hey Boy Hey Girl” abriu as hostilidades daquela que seria uma atuação à altura do que os britânicos já habituaram o seu público. Os maiores hits da dupla ecoaram pelo Passeio Marítimo de Algés, naquele que foi também um espetáculo de luzes.

Dos que não abandoram o recinto, eram muito poucos os que se mantiveram sentados, por isso, o dever estava cumprido.

Outro dever, o de apagar a luz, aquele que cabe tradicionalmente aos últimos, ficou a cargo dos 2ManyDjs, no Palco Heineken, e dos Throes + The Shine, no palco Clubbing – estes últimos que estiveram à conversa com a TVI24 durante a tarde – que atuaram logo depois de Junior Boys. Terminava o primeiro dia de Alive 2016.

Esta sexta-feira há mais, com destaque para os Years & Years, Foals, Tame Impala e Radiohead.