Carlos Paião, falecido há 25 anos, foi «um compositor e autor de mérito único», mas o começo de carreira não foi fácil, como recordou à Lusa o produtor musical Mário Martins, o primeiro a reconhecer-lhe o talento.

«Se hoje estivesse vivo, seria provavelmente o maior compositor e autor de música ligeira», enfatizou, em declarações à agência Lusa, Mário Martins, que conheceu Carlos Paião por intermédio de «outro grande compositor», Manuel Paião, seu primo, autor de sucessos como «Ó Tempo Volta P'ra Trás».

«O Carlos Paião tinha ganhado o Festival da Canção de Ílhavo, e tinha enviado uma cassete com temas seus para a EMI-Valentim de Carvalho, que nunca mereceu qualquer resposta, até que o Manuel Paião, com quem eu trabalhava regularmente, me pediu para ouvir a cassete e eu fiquei abismado, pois havia ali muita qualidade», contou Mário Martins, na altura diretor do Departamento de Artistas e Repertório da antiga discográfica.

«O Carlos [Paião] não tinha uma grande voz, mas era um extraordinário compositor e autor e, quando entrei em contacto com ele para gravar temas, disse-me que também não estava interessado em gravar», recordou.

O fadista António Mourão foi o primeiro a gravar um tema de Carlos Paião, «Fado Reguila», que «não alcançou o sucesso esperado», mas Mário Martins recorreu a uma outra estratégia - tornar Amália Rodrigues uma aliada.

Reconhecendo em Paião «características idênticas às de outro grande autor, que foi o Alberto Janes», e notando-lhe «um grande sentido de humor», Mário Martins recorreu a Amália, «o milagre português, que seria a pessoa capaz de percecionar essa genialidade».

Amália Rodrigues ouviu várias canções, «deu gargalhadas ao ouvi-las, e escolheu logo uma dúzia delas, nomeadamente "O Senhor Extraterrestre", que gravou».

Estava dado o pontapé de saída. No dia seguinte, Mário Martins fez saber no meio radiofónico que a fadista ia gravar Carlos Paião, e os temas de sua autoria começaram a rodar.

Carlos Paião estava lançado, e começaram a surgir na rádio as diferentes canções com a sua assinatura. Concorreu ao festival da canção infantil da Figueira da Foz, com os temas «Eu Já Namoro» e «O Meu Avozinho», e a cançonetista Ana gravou temas seus.

Ana foi a primeira de muitos outros nomes como Mísia, Florência, Lenita Gentil, Alberto Reis, Alexandra, Vasco Rafael e Cândida Branca Flor - que foi a intérprete que mais o cantou, segundo o seu biógrafo, Nuno Gonçalo da Paula.

O primeiro disco que Carlos Paião gravou, como intérprete, incluiu os temas «Souvenir de Portugal» e «Eu Não Sou Poeta». Colaborou na música para a revista «Escabeche», no Teatro ABC, em Lisboa, ganhou, em 1981, o Festival RTP da Canção, com «Playback», batendo temas interpretados por nomes como José Cid, as Doce, Maria Guinot e a dupla Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo.

Colaborou na telvisão com Herman José, António Sala e Luís Arriaga, tendo sido um dos criadores das personagens Estebes e Serafim Saudade, para o qual compôs o repertório.

Carlos Paião, que terminara o curso de Medicina, acabou por se tornar um nome de referência na música e, em pouco menos de uma década, impôs-se como autor, compositor e intérprete, deixando «canções antológicas» que novos nomes têm recuperado. São os casos de Filipa Cardoso, Fábia Rebordão, Rui Veloso, Sam The Kid, Mesa e Tiago Bettencourt & Mantha.

O autor e intérprete de «Pó de Arroz», «Cinderela», «Cartas de Amor», «Refilar Faz Mal à Vesícula», «Está Zero a Zero», «P'ras Sogras Que Encontrei na Vida», entre outras, morreu num acidente de viação, em Rio Maior, no dia 26 de agosto de 1988.

Em março passado, a Parlophone editou um duplo CD com canções suas, entre as quais incluiu o tema inédito «Caminhar», interpretado por Paião.

«Na sua aparente fragilidade, ele foi mais forte do que a morte, que não jogou limpo e perdeu, porque o Carlos Paião ficará sempre vivo na memória dos que o conheceram e admiraram», disse Mário Martins.