Os Buraka Som Sistema chegaram ao fim, depois de dez anos de carreira que revolucionaram o panorama musical em Portugal e levaram o som dos subúrbios de Lisboa aos quatro cantos do mundo.

Quando surgiram, em 2006, o público estranhou o som agressivo e diferente que tocavam, mas os Buraka Som Sistema eram mais do que música e estavam dispostos a arriscar tudo para levar o público a sentir a batida e, sobretudo, a identificar-se com aquilo que queriam fazer.

Buraka Som Sistema é sinonimo de música house, eletrónica, africana, mas também tribal, desconcertada e, às vezes, até inventada. É uma mistura de sons e batidas únicas. Independentemente do que possa surgir “amanhã”, certo é que o grupo nascido nos subúrbios de Lisboa deixou uma marca própria na história da música do mundo.

Em 2006, Riot, Branko, Kalaf e Conductor criaram o 1-Uik Project, um projeto com sonoridades de hip-hop que, mais tarde, impulsionou a criação dos Buraka Som Sistema. Foram os clubes noturnos de Lisboa que deram espaço para as experimentações dos quatro amigos. Primeiro o Clube Mercado, depois a discoteca Lux e mais tarde a Casa da Música, no Porto. Aliás, foi no palco da invicta que Kalaf clarificou, ao microfone, o andavam a fazer. "Este é o som da periferia de Lisboa. Este é o som da Reboleira, da Amadora, da Buraca!", e assim nasceram os Buraka Som Sistema.

Buraka Som Sistema ( foto: Ana Gilbert)

Mas os Buraka Som Sistema não foram sempre uma banda de sucesso, durante os dez anos em que estiveram juntos, o grupo editou cinco álbuns e teve algumas mudanças.

Com o primeiro EP, os temas "Yah!" e "Wawaba" animavam as noites do país e, aos poucos, todas as classes sociais e etárias se rendiam ao ritmo diferente desta banda lisboeta. Riot considerou, em declarações à TVI24, que a banda teve um papel importante na inclusão da música dos subúrbios nas pistas de dança comerciais. “Fizemos parte de um movimento que fez bom trabalho” para quebrar alguns preconceitos e estigmas sociais que de certa forma condicionavam a música e arte a estratos sociais ou económicos.

Esse movimento engloba pessoas desde as mais pobres do mundo até às classes sociais mais ricas, e é isso que gostamos”, disse Riot.

Em 2008, Pongo Love, cujo verdadeiro nome é Engrácia Silva, era a bailarina que "sacudia" tudo e todos nos espetáculos da banda e ainda cantava algumas músicas. Nesse mesmo ano, surge Blaya para substituir Pongo Love que era menor de idade naquela altura e não podia ausentar-se do país para os concertos. A crítica e os fãs da banda sentiram que com a substituição da bailarina podia ser o fim, mas Blaya deu conta do recado e em 2016 continua a ser o rosto e a voz feminina dos Buraka Som Sistema.

Festival BES Seleção 2010 - Buraka Som Sistema ( foto: Manuel Lino)

Riot (Rui Pité) assume-se como o mais sentimentalista da banda, mas admite que a saudade dos Buraka Som Sistema não será nostálgica ou tristonha.

Foram tempos muito bons. Fica a experiência e um sentimento de que bebeste de várias fontes e que conheces outros estilos doutros Buraka que existem por esse mundo fora e é isso que queremos transparecer nesta nova fase”, disse em entrevista à TVI24.

Dos 10 anos da banda, o músico admitiu não conseguir isolar um, mas tem o seu top 3. Quando foram ao Japão, em 2009, estava provado o poder da música que faziam. “Simboliza quase uma volta ao mundo da nossa música e ver ali centenas de japoneses a curtir o nosso som foi um abre olhos”, confessou Riot. Depois a presença no Coachella, nos Estados Unidos, nesse mesmo ano, foi “bastante importante” porque não sabiam como é que as pessoas que não os conheciam, e estavam naquele que é considera um dos maiores festivais de música e arte do mundo, iriam reagir à batida da Buraka. “Foi uma tarde maravilhosa”, disse. Por fim, Riot elege a Bélgica como país onde há mais fãs fora de Portugal. “É engraçado vê-los a tentar cantar não só português como também calão de Angola”.

Veja na imagem abaixo quem são os membros que vão fechar os 10 anos de Buraka Som Sistema (clique em cima de cada elemento para ficar a cada artista).

No final da década de 2000, o grupo da Linha de Sintra tinham-se internacionalizado. As batidas do afro house e do kuduro progressivo dos subúrbios faziam-se ouvir nos quatro cantos de mundo. Muitos podiam não entender o que se cantava, mas ninguém conseguia ficar indiferente ao ritmo.

Apercebi-me da dimensão que isto poderia ter por mexer com dança e com uma linguagem mais próxima das pessoas que vivem em Lisboa, porque quase ninguém cresceu no centro da cidade. As pessoas cresceram nos subúrbios e, de repente, parece que conseguíamos falar a mesma língua que a geração que estava em frente a nós, e isso fez todo o sentido”, explicou Branko (João Barbosa) à TVI24.

Kalaf admitiu que ao longo de todos este anos foram cometidos alguns erros e até se diz arrependido por não ter dedicado mais tempo a Lisboa. "Mas pelo menos tentámos que a música chegasse ao público sem filtros", disse à TVI24.

Uma das melhores formas de recordar os Buraka Som Sistema é viajar no tempo e ver como tudo aconteceu. Na cronologia abaixo pode ver, ouvir e ler sobre a evolução da banda e recordar alguns dos principais êxitos.

E agora Buraka, quem é “dona do terreno”?

Se pensa que o elo de ligação entre os membros dos Buraka Som Sistema se resume àquilo que têm produzido e aos espetáculos, desengane-se. Este não será o último dia em que vamos ouvir falar de Conductor, Riot, Branko, Kalaf e Blaya.

Andro Carvalho (Conductor) é músico, produtor e consultor cultural. Rui Pitá (Riot) vai terminar o primeiro álbum em nome próprio e dar continuidade ao estúdio que está a criar na Amadora. João Barbosa (Branko) é DJ e agora vai dedicar-se mais à produtora ENCHUFADA e, em 2017, deve estrear um programa televisivo. 

Kalaf Epalanga (Kalaf), o intelectual da banda, vai empenhar-se na escrita e, possivelmente, lançar mais livros, uma vez que, em 2011, escreveu "Estórias de Amor para Meninos de Cor" e, em 2014, lançou "O Angolano que Comprou Lisboa". Blaya também escreve, pelo menos escrevia, e agora acredita que vai ter mais tempo para recuperar o hobbie, dedicar-se aos workshops de dança e, quem sabe, voltar à televisão.

Se este é o destino traçado para a banda, que durante uma década abanou mentalidades e culturas com dois EP e três álbuns, 800 concertos e muita festa, agora fica a pergunta: Buraka, quem é “dona do terreno”? Os fundadores respondem com a hastag Buraka4Ever.

Para assinalar os dez anos da banda, os Buraka Som Sistema têm andado em digressão internacional desde fevereiro e passaram por países como Colômbia, Estados Unidos da América, França, Bélgica, Suíça, Alemanha, Holanda e Reino Unido.

O jardim da Torre de Belém, em Lisboa, foi o local escolhido para o último concerto e Blaya não deixou de assinalar a data na sua página do Facebook. A cantora e bailarina recordou os oito anos que dedicou aos Buraka Som Sistema e apelou ao público que se junte ao grupo para a derradeira festa de despedida.

O concerto desta sexta-feira está inserido no Globaile, um evento, que se deseja anual, com objetivo de divulgar as “"novas coordenadas da eletrónica global".

Pode o futuro ainda estar por escrever, mas por agora é certo que os Buraka Som Sistema chegaram ao fim. #Buraka4Ever