Com artes de bem receber, Diogo Gaspar gostava de mostrar aos amigos uma tela de Paula Rego, retratando o antigo Presidente da República, Jorge Sampaio. E garantia mesmo que o quadro era seu, tendo sido uma oferta da pintora.

Conta o jornal Público que a tela é apenas uma das obras de arte que a Judiciária presume ter sido desviada do Museu da Presidência, por Diogo Gaspar. Depois de detido na passada quinta-feira, o diretor está agora com funções suspensas e em liberdade, contra o pagamento de uma caução de 50 mil euros, no prazo de trinta dias.

Diogo Gaspar é suspeito da prática de 13 crimes, que passam pelo tráfico de influências, peculato e participação económica em negócio. A TVI24 tem tentado contatar o advogado do agora suspenso diretor do Museu da Presidência, para obter esclarecimentos sobre o processo, mas até ao momento não obteve resposta.

Dois milhões de euros em quadros

Os quadros de Paula Rego, a mais conhecida pintora portuguesa viva, pertença da presidência da República valerão hoje mais de dois milhões de euros, segundo relata o Público. Era este aliás o valor da avaliação feita há dez anos às telas do Ciclo da Vida da Virgem Maria, encomendadas para a capela do Palácio.

Em 2006, no final do seu segundo mandato como Presidente, Jorge Sampaio apresentou o seu retrato oficial. Paula Rego foi a escolhida para o pintar.

Sampaio rompe com os cânones do retrato presidencial, à semelhança do que já havia feito o seu predecessor, Mário Soares [que escolhera Júlio Pomar], e introduz, pela primeira vez, uma mulher na galeria de pintores oficiais”, refere-se na página oficial do Museu da Presidência.

O convite a Paula Rego surgiu após uma outra encomenda que a levou a pintar oito telas - o Ciclo da Vida da Virgem Maria - para a Capela de Nossa Senhora de Belém, no Palácio de Belém.

Quanto ao retrato presidencial, Paula Rego terá produzido várias versões. Tudo indica que uma delas será a que foi encontrada em casa de Diogo Gaspar e que o próprio argumenta ter-lhe sido oferecida.

Na casa do diretor do Museu da Presidência, a Polícia Judiciária terá também encontrado móveis antigos e tapeçarias, que se suspeita serem do Museu da Presidência.

Mais crimes em investigação

Diogo Gaspar, de 45 anos, foi suspenso de funções. Ficou proibido de entrar na secretaria-geral da Presidência da República, no Museu da Presidência e no Palácio da Cidadela, em Cascais. E também não pode contatar funcionários destas instituições.

O comunicado sobre o processo, feito pela juíza de instrução, refere que lhe são imputados cinco crimes de peculato, quatro de participação económica em negócio, um de tráfico de influência, um de falsificação de documentos, um de abuso de poder e um de peculato de uso.

Os investigadores terá também encontrado “bens culturais e artísticos”, segundo um comunicado da Judiciária, numa empresa ligada a Diogo Gaspar, que prestaria serviços à Presidência de República e ao respetivo museu.

A firma foi criada em Julho de 2013 e está em nome do namorado de Diogo Gaspar, que estagiou nessa altura no museu. As autoridades acreditam que a empresa será de Diogo Gaspar, que não integra contudo os seus órgãos sociais.

Na mira da investigação está também o tráfico de influências, acreditando-se que o diretor do Museu da Presidência intercederia junto de decisores públicos para favorecer quem o contratava, segundo relata o jornal Público.

Sexta-feira passada, o advogado Raul Soares da Veiga, defensor de Diogo Gaspar, argumentou publicamente haver deturpações da verdade por parte da investigação.

Ele comprou certos bens que tinham sido dados para abate na Presidência da República e não tinham interesse nenhum para a Presidência da República. Foram vendidos a um senhor e depois Diogo Gaspar comprou-os a esse senhor”, referiu o advogado, que a TVI24 não conseguiu contatar até ao momento.