Todos os dias, as mulheres portuguesas gastam mais 1h40 do que os homens em tarefas domésticas. Mas, mais grave do que o desequilíbrio, é que 7 em cada 10 esposas considera justa a desigualdade por ser “natural”. E mesmo nos casais de escalões etários mais baixos a assimetria é elevada.

Estas são as conclusões mais chocantes do estudo “Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal”, apresentado na passada terça-feira em Lisboa. Desenvolvido pelo Centro de Estudos para a Intervenção Social, em parceria com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, o estudo foi quase ignorado pelos media portugueses, tendo obtido apenas dois destaques (um na imprensa e outro na rádio). Nenhuma televisão deu qualquer destaque ao assunto, como se os papéis do homem e da mulher num casal fossem os mesmos de 1916.

Este estudo lembra de imediato aquilo que se pode constatar em muitos programas do canal Fine Living, que seguem um casal à procura de casa para comprar, algures nos Estados Unidos.

Quase sem exceção, a mulher está preocupada com a cozinha e a sala de jantar, com poder manter os filhos debaixo de olho e em ter uma salinha para os seus hobbies, sempre entre as colagens e uma qualquer variante de costura e lavores. Algo que qualquer manual salazarista para donas de casa consideraria exemplar! O homem, por seu lado, quer um espaço para fazer grelhados e uma “man cave” para ver desporto com os amigos (e escapar às tarefas domésticas). Em qualquer dos casos, referindo sempre as cervejas.

Pelo resultado do estudo, se fosse produzida uma versão desses programas em Portugal teríamos exatamente o mesmo tipo de comportamentos. A reprodução de modelos sociais do passado está mais institucionalizada do que muitos podem pensar, num milénio em que se fala todos os dias em luta contra a descriminação.

Mas, seja em casa ou nos media, igualdade parece continuar a ser uma palavra sem significado.

Ficha técnica

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