Maria de Jesus Barroso morreu hoje, aos 90 anos de idade. Estava internada no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, em estado grave, desde 26 de junho. Ficará na história pelo seu papel na política, de forma direta ou indireta, mas também não será esquecida como atriz. Do palco ao grande ecrã, ela tornou-se um ícone do cinema.



Maria Barroso, no cinema português, está ligada ao trabalho de dois dos seus maiores realizadores, Manoel de Oliveira e Paulo Rocha. Em «Benilde ou a Virgem Mãe» (Manoel de Oliveira, 1975), adaptação de uma peça de José Régio de que Maria Barroso interpretara a personagem principal no teatro, quase trinta anos antes, desempenha a personagem da governanta Genoveva; e aparece igualmente em «Amor de Perdição» (Manoel de Oliveira, 1978), a adaptação de Camilo Castelo Branco, esse filme mítico que, com «Trás-os-Montes» (António Reis e Margarida Cordeiro, 1976), contribuiu para a decisiva projeção internacional do cinema português - aliás, não tendo neste caso trabalhado no cinema com António Reis, Maria Barroso colaborou com ele na Escola do Conservatório Nacional. 








Mas é em «Mudar de Vida» (Paulo Rocha, 1966) que Maria Barroso atinge o valor de ícone, compondo uma das mais intensas personagens do cinema português, Júlia, «uma mulher do mar à moda antiga», como é dito na sinopse do filme que foi recentemente (e finalmente) editado em DVD. Em «Mudar de Vida», Maria Barroso existe mais vivamente ainda do que como a atriz, sublime, que encarna a personagem nesse papel quase mudo — ela existe aí gloriosamente: o seu gesto e o seu belo rosto são nós apertados de sensualidade pronta a rebentar, conjugada com a dor terrível da mulher que não pode cumprir o amor. E a sua morte, em «Mudar de Vida», é simplesmente uma das mais belas mortes do cinema. Muito para além da obra do cineasta Paulo Rocha, todos sabemos bem que qualquer recolha iconográfica do cinema português não fica completa sem imagens da sua presença nesse filme.





Maria de Jesus Barroso Soares formou-se em Arte Dramática no Conservatório Nacional, em 1943. Mais tarde, licenciou-se em História e Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquele que seria o seu marido, Mário Soares.

Estreou-se como atriz no Teatro Nacional, em 1944, na companhia Amélia Rei Colaço/Robles Monteiro e na peça "Aparências", dirigida por Palmira Bastos, tendo o papel na peça de José Régio "Benilde" sido considerada uma das suas interpretações mais memoráveis.

Maria Barroso foi homenageada no Festival de Teatro de Almada, em 2010, altura em que foi recordada a sua derradeira atuação, em 1966, no Teatro São Luiz (Lisboa), interrompida com violência pela PIDE, polícia política da ditadura.

O programa dessa 27.ª edição do festival trazia o testemunho do seu diretor, Joaquim Benite, que lembrava a interpretação de Maria Barroso de "A voz humana", de Jean Cocteau, e o ataque da PIDE, de que essa sessão foi alvo.
 

"Uma frágil mulher ao telefone tentava, com amargura e impaciência, religar os fios partidos de uma vida. A sua voz era a voz da perplexidade e da angústia da perda, a voz humana", criando "essa atmosfera de suspensão do tempo, que só os grandes atores tornam possível", escreveu no programa o fundador do Teatro de Almada, Joaquim Benite.


De súbito, "o sórdido ataque explodiu". "Os polícias, vindos da casa do lado [sede da PIDE], tinham espalhado frascos de um cheiro de vómitos que anunciava a presença da peçonha que representavam".

"Tumulto. Gritos de protestos. Impropérios. Frases indignadas. O espetáculo deu lugar à manifestação. A realidade real assassinava a poesia que uma frágil figura de mulher (mas grande figura de atriz) soubera invocar e fazer surgir", lia-se no documento.


 

"Tenho a memória dessa tarde longínqua dentro de mim, nítida, minuciosa", prosseguia o encenador, recordando esse fim de dia, quando era jornalista do vespertino República. "A notícia do espetáculo, que escrevi, foi, obviamente, cortada pela Censura".


"Não sabia, na altura, não podia adivinhar, que estava a assistir à última criação teatral de Maria Barroso e não imaginava que, quase meio século depois, estaria aqui a evocar essa tarde, num País diferente — um País democrático que não é aquele com que sonhei, é certo -, mas onde o fascismo foi derrotado".

A homenagem a Maria Barroso, no festival de Almada, em 2010, permitiu o seu regresso aos palcos, num espetáculo de poesia que partilhou com as atrizes Carmen Dolores e Eunice Muñoz. Contou ainda com uma exposição retrospetiva do seu percurso e a exibição dos filmes de Paulo Rocha e Manoel de Oliveira, em que participara.

Joaquim Benite, fundador da Companhia de Teatro de Almada e do festival internacional de teatro, que tem em curso a 32.ª edição, morreu em 2012, aos 69 anos.
 

A mulher da sua geração que mais admirou


A atriz Carmen Dolores evocou hoje a "coragem" e o "talento" de Maria de Jesus Barroso, que morreu durante a madrugada, considerando que foi a mulher da sua geração que mais admirou.
 

"Recordo-a como a mulher mais importante, a que mais admiro da minha geração", disse Carmen Dolores em declarações à agência Lusa, lembrando o papel de Maria Barroso como atriz do Teatro Nacional D. Maria II, durante a ditadura, quando foi impedida de trabalhar.


Recordou ainda "tudo o que fez na cultura e na poesia numa altura em que era difícil revelar determinados poetas considerados revolucionários".
 

"Foi uma mulher cheia de coragem, uma mulher cheia de talento e uma cidadã extraordinária toda a sua vida e em todas as suas ações, tanto na vida privada, como na vida pública. Acho que todos a devemos admirar", sublinhou.


Carmen Dolores lamentou nunca se ter cruzado com Maria Barroso nos palcos do Teatro Nacional e recordou o recital de poesia que, em 2010, fez com ela e com Eunice Muñoz, durante o Festival de Teatro de Almada.
 

"Foi das poucas vezes em que, infelizmente, nos encontrámos [em palco]. Não nos encontrámos como atrizes, mas encontrámo-nos como mulheres. Andámos no mesmo liceu e ela foi sempre uma mulher extraordinária com quem se podia contar para tudo", disse.