Ao primeiro dia, afugentou partidos. Ao segundo, declarou-se “ da esquerda da direita”. Ao terceiro, deu os votos como decididos. Um candidato confortado, logo no arranque da partida, com uma vitória que ainda não aconteceu, mas que a sua campanha dos afetos o fez querer próxima. E à primeira volta. Para a segunda mão, fica (só) a política que conta fazer nos bastidores de Belém. Nos ensaios, “fartou-se” de dizer o que pensa, pensando no que dizia. Logo, ficando muito por dizer. Beijinhos e abraços, esses, houve de sobra. 

A caravana descaracterizada e a equipa reduzida faziam vislumbrar o que aí vinha: campanha na estrada é com Marcelo ao ‘volante’ (sim, até a conduzir chegou). A agenda vinha a conta-gotas. Se era a sua campanha, era para ser ao seu estilo imprevisível. Por mais que os jovens assessores tentassem controlar alguma coisa: ‘agora vamos ali e paramos 10 minutos’. A resposta é uma pergunta: “10 minutos? Isso não existe. Se pára, para. Não é chegar e dizer adeus”.

Basta conhecê-lo da televisão para aferir a sua energia, mas se há coisa em que não mostrou pressa foi nas visitas que fez às misericórdias e hospitais. Talvez por isso tivesse poucas iniciativas por dia. Verbalizou os afetos com palavras de reconforto às dezenas de velhinhos que foi conhecendo. Recebeu votos e certezas de sorte em troca. Marcelo, o comentador, serviu tantas vezes de desbloqueador de conversa: "Sou mais magro ou mais gordo ao vivo?". 


(José Sena Goução/Lusa)


Os papéis de Marcelo


Marcelo bem que avisou os adversários - que nunca nomeou em particular: "Não estão bem a ver o filme". Deu centenas de “beijocas”, sim, comeu bolinhos, também, bebeu água ou sumol (café não bebe nem precisa). Essa “coisa estranha de um alegado intelectual entrar nas pastelarias e comer bolos”, essa coisa da campanha da marmita de que ouviu falar só lhe mereceram ironias, tanto na descrição, como na justificação: “O meu grande pecado era ter sido aquilo que era antes de ser candidato”. Marcelo, a vítima.

Era só uma vítima aparente. “Depois via-os eu a comer bolos pelo país (uns mais do que outros, é verdade). Não era afinal assim tão grave, não era nada assim tão proibido”. Os ataques aos adversários vinham assim, como que a contar uma história a uma criança. 

O candidato quis distinguir-se deles de várias maneiras, fosse pelas agências de imagem e marketing que não tem, fosse pelo facto de os seus “excessos populares” não serem uma “maçada enorme”. Marcelo,o herói "popular, não populista". Podia ser um slogan. Foi apenas mais um sublinhado do professor.

Marcelo foi o DJ da festa. Sem playlist nas ruas. O lado A esteve quase sempre a tocar. O lado B foi o menos rodado nesta campanha, é certo. Mas foi fado de um refrão desesperado de quem perdeu tudo no BES e no Banif. Aí, surgiu Marcelo, o psicólogo

Previsíveis só mesmo os pontos de encontro – pastelarias, claro -, e as paragens obrigatórias pelas farmácias – obviamente – para saber das “novidades” e do que havia “em termos de omeprazol”.

De resto, e mesmo entrando loja sim, loja sim, nunca se sabia bem o que dali ia sair. Até nas situações mais insólitas tinha na ponta da língua uma graçola ou tiradas políticas. Marcelo, o inconveniente também.

Não houve bandeiras, bombos, nem grandes ajuntamentos. Em Portalegre, fez-se finalmente sol, as ruas estavam desertas e ele lá foi, atraindo gente aos poucos e sem pressas. Marcelo, o simples. 

Sem ser simplista. Perspicaz: soube aproveitar as situações para um melhor boneco na televisão ou para as objetivas dos fotógrafos. Soube improvisar. Foi genuíno. Arriscamos na palavra, mas claro que é difícil conhecer um político no seu lado mais intimista. Mesmo um político que todas as semanas tenha entrado casa adentro de tantos portugueses. Marcelo também tem muito de indecifrável


Política (des)comprometida


É Marcelinho para os amigos. Quase sempre bem recebido nas ruas, a despertar sorrisos. Foi preciso chegar ao penúltimo dia da campanha, no Porto, terra onde o coração mora na boca, para o “pirilampo” (créditos de uma das mandatárias) perder um pouco do brilho. Enquanto engraxava os sapatos para o dia das eleições, foi alvo de alguns impropérios. Daqueles de meter os políticos todos no mesmo saco.


(José Sena Goulão/Lusa)


Não ficou pendurado. Nem ali, nem no seu PSD. Nem no CDS. “Mil vezes me tentaram para que assumisse posição de líder partidário”. Houve alguns (im)previstos partidários? Houve. Vários nomes reputados marcaram presença? Sim. Mas o ex-líder social-democrata autopromoveu-se a árbitro presidencial e quis – diz que quer - jogar noutro campeonato.
 

“Sou grato, mas sou independente, não negociando apoios, nem recomendações de voto”.
 

 
Se isso incomodou alguém? “Incomodou”. Mas “é a vida”. E lá foi dando uma no cravo, outra na ferradura, tanto a Passos como a Costa. Pôs-se ao lado do primeiro-ministro antes de conhecer o Orçamento e ao ex-chefe de Governo aconselhou-o a “refazer-se” na oposição. O faz/desfaz repentino na Educação foi motivo para sermões, sem o candidato assumir realmente o que pensa. Fugiu sempre a tomar partido. 

A mensagem do disco em repeat incidiu invariavelmente sobre os consensos de regime. Não só na educação, também na saúde, na Segurança Social e na Justiça. Em nome da estabilidade. Dos laços deslaçados que é preciso voltar a enlaçar. Entre as pessoas, com a sua magistratura de afetos e presidências abertas ao estilo de Mário Soares (até "Marcelo é fixe!" numa dúzia de autocolantes apareceu nesta campanha).

E entre os políticos, que têm feridas por cicatrizar. Ele quer Passos e Costa a “respirar fundo” e a dar as mãos mais vezes. Marcelo, o pacificador.
 
Um Presidente com fair-play, portanto. Seja que equipa vier a jogo. Se Cavaco definiu linhas vermelhas e balizas para dar posse e manter o Governo PS com apoio parlamentar do BE e do PCP, Marcelo assume que “essa é uma diferença" (entre outras): "Para mim não há balizas nem vermelhas, nem laranjas, nem amarelas, nem azuis”.


Então o que há? "Há a Constituição, é a baliza das balizas". Daí a prudência na hora de equilibrar a balança entre dizer o que pensa e pensar no que diz. Marcelo deixa a política pura e dura para depois. O que se pode esperar, promete, é um estadista que quer ser “cooperante, sem causar ruído”. Um “fusível de segurança”. Marcelo, o moderado
 

​"A minha ideia não é chegar lá de apito na boca preparado para na primeira ocasião marcar penálti”.


Marcelo descansa Costa e, ao mesmo tempo, deixa-o de sobreaviso. É que o apito é para estar ao pescoço, e para soprar quando for “verdadeiramente necessário". Palavras suas, no meio campo de um país que não quer dividido em dois, num tempo velho e num tempo novo. Pois, sempre a martelar no slogan de Nóvoa. Menos em Maria de Belém, mas a polémica das subvenções ajudou-o.
 

A final é dia 24


Aplaudir o árbitro é imagem rara em Portugal. Este está “confiante”, “muito confiante”. Sabe que os portugueses estão cansados, sabe que há indecisos.  Pediu que “ponderem cuidadosamente”.

Puxou dos galões, autoelogiou-se em catadupa e lembrou diariamente o currículo de professor e político que soube construir consensos em tempos complicados. Sabe que vêm aí tempos complicados. Até porque Costa está a tentar um “equilíbrio talentoso” de conseguir.

Com que linhas se cose um vencedor? Marcelo vai embalado pelas sondagens, mas a carruagem ainda pode empancar numa segunda volta. Apanhou o comboio de Santa Apolónia para o norte e termina a campanha na sua "terrinha". Quer regressar de Celorico de Basto para abraçar a pátria a partir da varanda de Belém. A final é dia 24. E prognósticos, é como diz o povo: só mesmo no fim do jogo. (Isto se não houver prolongamento).