Imaginemos os três políticos no Algarve durante Agosto, que resposta dariam sobre quem ganhou mais e quem mais perdeu com tudo o que se passou entre 1 de Janeiro e 31 de Julho? A resposta a essa pergunta podemos ensaiá-la nas próximas linhas através de um olhar sobre as mais de doze mil notícias que fizeram destaques e aberturas ao longo de 212 dias.

O futebol foi o tema que mais notoriedade obteve durante os últimos sete meses e para regozijo de Marcelo e Costa (e desencanto de Passos) foi durante a Presidência do primeiro e o Governo do segundo que Portugal se sagrou campeão da Europa em futebol.

Uma rápida análise das notícias mostra-nos que o nosso quotidiano esteve refém das preocupações com o orçamento de Estado de 2016 e do défice de 2015. Aqui há um claro ganho de Costa e uma derrota de Passos. A maioria das notícias acabaram com final feliz para António Costa e o seu governo, apesar das críticas de Passos Coelho e da oposição do PSD e CDS. Já Marcelo Rebelo de Sousa, embora não diretamente envolvido, obteve pelas suas intervenções sobre o tema uma apreciação pública essencialmente positiva.

Sobre o défice de 2015, os dois protagonistas que mais recolheram louros com a não aplicação de sanções a Portugal foram Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Pois, embora Passos Coelho tenha vindo a congratular-se com o resultado positivo para Portugal, o ziguezague da oposição sobre o tema acabou claramente por prejudicar a imagem pública numa questão que ganhou, na opinião pública, foros de ataque da União Europeia à dignidade de Portugal.

Quanto à atenção dada à banca ao longo de mais de duas centenas de dias de 2016, os perdedores são claramente António Costa e Passos Coelho. Nesta temática o Presidente da República soube retirar os louros de um tema que elegeu como preocupação central na sua atuação política. Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu criar uma ideia de atenção ao tema mas, simultaneamente, de equidistância face ao sistema bancário, algo que tanto Costa como Passos não conseguem fazer devido aos casos BES, BANIF, BPN e CGD.

Marcelo foi também o grande ganhador público das eleições presidenciais, não apenas pelo voto mas também pelo impulso mediático conseguido durante a campanha que catapultou a sua atuação enquanto Presidente para um nível de atenção mediática que deixa a grande distância Passos ou Costa.

Há apenas dois temas que, embora tenham tido a atenção do Conselho de Estado, não influíram diretamente na leitura de atuação de nenhum dos três protagonistas políticos do semestre. Esses temas foram os atentados e o Brexit. Ambos temas que, embora nos preocupem e criem sentimentos de insegurança, pouco influíram na apreciação pública da atuação dos três líderes. Um outro tema, também ele com pouco impacto político, foi a cobertura dada a suicídios e homicídios em Portugal. Um tema que poderia ser mais prejudicial para o primeiro-ministro, do que para o Presidente ou para o líder da oposição, mas que não teve essa associação direta com a atividade política, pelo que o seu impacto foi neutro na prestação pública dos nossos políticos.

O Top 10 dos temas que fizeram o quotidiano de janeiro a julho fica completo com a temática dos contratos de associação onde o pleno da concordância permitiu materializar sem pruridos a aliança PS, BE, PCP, Verdes, algo que a governação e as votações parlamentares nem sempre permitem. Este foi um tema em que o ganhador indisputável foi António Costa e que teve Passos Coelho como o grande derrotado, perante um Marcelo Rebelo de Sousa que, estrategicamente, soube manter um difícil equilíbrio entre os interesses em jogo.

Os sete primeiros meses foram meses em que a medalha de ouro teria sido ganha por Marcelo, a de prata atribuída a António Costa e o bronze a Passos Coelho. Quanto aos próximos cinco meses, a resposta está ainda em aberto, pois na política, ao contrário do desporto, o doping é permitido e até por vezes encorajado.

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Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.