O Cardeal-Patriarca de Lisboa alerta que a Igreja traz frequentemente para dentro de si "as práticas habituais da 'sociedade de consumo', em que o intercâmbio se faz mais de coisas do que propriamente de relações pessoais".

Na intervenção de Manuel Clemente no sínodo dos bispos, no Vaticano, que tem como tema central a família, e que foi hoje disponibilizada na página do Patriarcado de Lisboa, o responsável admitiu que "são recorrentes as queixas de quem não é verdadeiramente acolhido nem atendido, mesmo quando contacta as instituições da Igreja", mas salientou que "nem sempre podemos corresponder ao que nos é pedido, mas nunca podemos desprezar quem nos pede alguma coisa".

Na base do discurso de Manuel Clemente está o conjunto de implicações que a crescente urbanização e migrações têm na vida familiar e na prática cristã: "Como sabemos, a crescente concentração de pessoas em grandes espaços urbanos e a separação dos familiares uns dos outros, para procurarem trabalho ou por outras razões, alterou profundamente o antigo quadro rural e localizado onde a vida geralmente decorria, com grande vinculação familiar", diz o patriarca.

"A maioria da população mundial vive já em meio urbano e o movimento crescerá sempre mais, em grandes concentrações, de muitos milhões de habitantes", por isso, afirma, "dificilmente se reconstruirão solidariedades como as que tivemos anteriormente, ou as vizinhanças estáveis onde as gerações se sucediam e reconheciam", e "também se tornou difícil dar condições materiais e sociais suficientes a todos os que querem constituir famílias e criar filhos, com a dimensão que tinham décadas atrás".

Neste contexto, o patriarca de Lisboa lembra que "se o número 53 do Instrumentum Laboris nos adverte que a comunidade cristã não se pode resumir a uma 'agência de serviços', é porque muitas vezes trazemos para dentro da própria Igreja as práticas habituais da 'sociedade de consumo', em que o intercâmbio se faz mais de coisas do que propriamente de relações pessoais autênticas".