O presidente cessante do governo madeirense, Alberto João Jardim, afirmou esta sexta-feira que a região não vai deixar de exigir respeito com a «mudança de um ciclo político», assegurando que vai participar na vida política como um «cidadão mais livre».

Na inauguração de um barco de pesca no Caniçal, concelho de Machico, o social-democrata, que esteve ausente da campanha para as legislativas regionais de domingo, lembrou que o «primeiro ciclo de autonomia» foi aproveitado para renovar a frota pesqueira e falou da dívida do arquipélago para declarar que o Estado português não tem o direito de tratar a Madeira «à parte», quando aproveitou «dois terços» do que a região produziu.

«Não aceito qualquer passividade, não aceito que se pense que a mudança de um ciclo político da Madeira seja o fim da história. Ela ainda mal começou, porque nós, madeirenses, não deixamos de exigir que seja feita justiça ao esforço que demos à pátria comum durante seis séculos», afirmou, no discurso, avisando que agora «a língua [poderá] estar ainda mais solta» para dizer o que não podia enquanto presidente.


«Nós exigimos que esse esforço seja respeitado e que não sejam deitados encargos sobre nós por termos tido força de vontade nestes 40 anos de ter ido buscar dinheiro onde ele havia, feito a divida pública que era necessário fazer para recuperar de atrasos que outros nos impuseram», acrescentou.

Ao fim de quase 40 anos no poder, sempre com maioria absoluta, o responsável vai «gozar com tranquilidade» os próximos tempos e conhecer as obras que inaugurou mas não teve mesmo tempo para conhecer de perto.

Questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de se afastar da política, respondeu com prontidão: Isso nunca. Sou um cidadão que vai participar na vida política, agora com o estatuto de simples cidadão, mas muito mais livre para dizer aquilo que tive de conter».


O social-democrata disse que não irá «mexer uma palha» para uma eventual candidatura a Belém. «Se houvesse o número de cidadãos a pôr o meu nome…», admitiu, tendo acrescentado que não venceria porque em Portugal «só quem é proposto por partidos» o consegue.

Jardim agradeceu ainda os 40 anos «bem felizes» que considera que a região lhe deu, como reporta a Lusa.

 É «fundamental» que Miguel Albuquerque tenha maioria absoluta 

O presidente demissionário do Governo da Madeira, Alberto João Jardim, considerou  ainda que se «fugiu aos grandes temas» na campanha para as legislativas regionais de domingo, como a autonomia, e disse ser «fundamental» que Miguel Albuquerque tenha maioria absoluta.

«Para mim é fundamental que o Albuquerque ganhe e com maioria absoluta. E porquê? Porque toda esta transição resultou de prazos que fui eu que defini e resultou de momentos que fui eu que defini», afirmou, garantindo o seu voto no candidato do PSD e esperando ouvir que com a sua metodologia «correu tudo bem e acabou tudo em maioria absoluta».


Alberto João Jardim falava aos jornalistas durante a inauguração de um barco atuneiro no Caniçal, em Machico, onde explicou, quando questionado sobre a sua ausência da campanha eleitoral que hoje termina, que teve reuniões na Letónia e em Estrasburgo.

«A casamentos e batizados só se vai quando se é convidado. Ninguém me convidou para a campanha, mas eu também lhe dei a saber que não estava cá», comentou, referindo-se ao candidato social-democrata às legislativas e seu sucessor na liderança do PSD/Madeira, Miguel Albuquerque. Foi, aliás, na sequência dessa substituição que Jardim pediu a exoneração.


O social-democrata, que deixa o poder ao fim de quase 40 anos, sempre com maioria absoluta, disse aos jornalistas que de fora da campanha ficaram três assuntos essenciais.

«Primeiro, a oposição futura de Portugal na Europa e no mundo, o futuro da Madeira vai depender muito disso. Em segundo lugar, a questão da autonomia – ou temos uma autonomia maior ou a situação mantém-se colonial, com ainda é. E em terceiro lugar, há que resolver esta questão da dívida pública da Madeira, que é o resultado do direito que os madeirenses tiveram de se desenvolver face a 500 anos de colonialismo», apontou.

Nesse período, acrescentou, «sugaram quase tudo» o que foi produzido na região.

Na sua opinião, faltou ainda abordar o fim das acessibilidades e foi uma «tontice» discutir o novo hospital.

Alberto João Jardim entende também que na região o PS (que lidera uma coligação com o PTP, o MPT e o PAN) e o CDS estão numa «situação de maridos enganados», não só porque «financiaram o diário dos ingleses [Diário de Notícias do Funchal]” e agora a publicação fala de Miguel Albuquerque, mas também porque financiaram o Juntos Pelo Povo e o recém-formado partido vai “ficar com os [seus] votos».

A agenda de Jardim incluiu ainda a anunciada inauguração da parte já terminada do novo terminal de cruzeiros do Funchal e, segundo o presidente cessante, ainda haverá outras inaugurações no Porto Santo para a semana.

A obra do cais foi contestada, entre outros, por Miguel Albuquerque, quando era presidente da câmara, mas Alberto João Jardim disse que o atual líder do PSD/Madeira não está incluído na “burguesia inculta” que criticou o projeto e na qual estiveram os seus «grandes adversários».

Às eleições de domingo concorrem 11 forças políticas - oito partidos e três coligações.