O ex-primeiro-ministro José Sócrates, de 57 anos, detido na sexta-feira à noite, esteve à frente do Governo entre 2005 e 2011 e definiu-se a si próprio como um social-democrata de centro-esquerda e um político «sanguíneo».

Na noite eleitoral de 5 de junho de 2011, quando perdeu as últimas eleições legislativas para o PSD, Sócrates demitiu-se também do cargo de secretário-geral do PS e anunciou a retirada, pelo menos temporariamente, da vida política e dos cargos públicos, após uma carreira de várias décadas, recorda a Agência Lusa.

Nesse dia, disse que «a justiça nada tem a ver com a política» e que o seu desejo «é viver num país em que essa separação esteja absolutamente ao serviço do Estado de Direito», em resposta a um pergunta da Renascença sobre se receava que a derrota eleitoral abrisse caminho a novos processos judiciais ou acelerasse outros em que o seu nome chegou a ser mencionado.

Depois de ter conseguido a sua maior vitória política nas legislativas de fevereiro de 2005, em que o PS conseguiu uma maioria absoluta, nas eleições de 2009 vê-se forçado a formar um governo minoritário, em plena crise financeira mundial, que o levou a apresentar sucessivos pacotes de austeridade.

Com os votos do PSD, viu a Assembleia da República aprovar três PEC (Pacto de Estabilidade e Crescimento) do seu Governo, mas aquilo a que os socialistas chamaram uma «coligação negativa» entre PSD, CDS, BE e PCP chumbou o PEC IV, em 23 de março de 2011, o que o fez pedir, no mesmo dia, a demissão ao Presidente da República, Cavaco Silva.

Duas semanas depois, pediu formalmente ajuda externa à troika, depois de ter negado, reiteradamente, que Portugal precisasse de um resgate financeiro. Justificou sempre que o resgate teria sido evitado com a aprovação do PEC IV.

Após a derrota eleitoral de 2011, Sócrates mudou-se para França, para estudar ciências políticas em Paris, e só voltaria à vida pública nacional em março de 2013, quando começou a fazer uma comentário político semanal na RTP. Na mesma altura, deu uma entrevista em que acusou Cavaco Silva de ter sido a «mão escondida por detrás dos arbustos» que levou à crise política que fez cair o seu último Governo.

No seu comentário semanal na RTP e nas intervenções públicas que fez desde então, Sócrates continuou a criticar o Presidente da República e o Governo, mas escusou-se a apontar o dedo, diretamente, à anterior direção do PS, de António José Seguro, de quem, no entanto, se manteve afastado.

Fez apenas uma aparição discreta no último dia da campanha das europeias de maio passado. E assim que António Costa assumiu a sua candidatura nas primárias do partido, contra Seguro, manifestou-lhe apoio.

Apesar de afastado da vida partidária, foi um dos protagonistas do debate na generalidade do orçamento do Estado de 2015, a 30 de outubro, quando foi elogiado no plenário da Assembleia da República por Ferro Rodrigues, originando protestos da oposição.

Também um dos secretários de Estado dos seus governos, Ascenso Simões, através de uma carta a Cavaco Silva, deu recentemente voz aos socialistas que lamentam que Sócrates seja o único primeiro-ministro não condecorado pelo Presidente.

A par do comentário político, Sócrates publicou, em outubro do ano passado, o livro «A Confiança no Mundo», que resulta da sua dissertação no Institut d'Études de Paris para o grau de Mestre em Teoria Política, e que andou a apresentar pelo país.

Por outro lado, foi escolhido, em fevereiro de 2013, para presidir ao conselho consultivo da farmacêutica Octapharma para a América Latina, pelo «conhecimento profundo» que tem da região e pela sua «vivência com os problemas de saúde pública», segundo a empresa.

A carreira política de José Sócrates começou em 1981, quando aderiu ao PS. Dois anos depois ganhou por poucos votos a presidência da federação socialista de Castelo Branco contra os soaristas, cargo em que permaneceria até 1995.

Considerado parte da nova geração de socialistas que alcançou o poder com a ascensão de António Guterres a primeiro-ministro, apoiou o atual alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados contra Jorge Sampaio na disputa da liderança do PS, em 1992.

Com a vitória de Guterres nas legislativas de 1995, foi nomeado secretário de Estado da ministra do Ambiente Elisa Ferreira, passando depois, em 1997, a ministro-adjunto para a Juventude, Toxicodependência e Desporto, cargo em que fez aprovar a Lei de Defesa do Consumidor, lançou a descriminalização do consumo da droga e foi um dos principais impulsionadores da candidatura à organização do Europeu de Futebol de 2004. Foi nomeado ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território, em 1999, chegando a secretário-geral do PS em 2004.