O antigo primeiro-ministro José Sócrates vai lançar um livro dedicado ao carisma. A obra, com lançamento a 28 de outubro, foi esboçada na prisão de Évora, quando se encontrava detido preventivamente na sequência das investigações do processo Operação Marquês. Isso mesmo é assumido pelo próprio na nota de apresentação de O Dom Profano – Considerações sobre o Carisma que TVI24 teve acesso, em primeira mão.

“Nas suas linhas gerais, este livro foi esboçado na prisão e, depois, desenvolvido com troca de impressões, sugestões de leituras e observações de muitos amigos com quem partilho afinidades eletivas na política”, escreve Sócrates, sem citar nomes. O ex-líder socialista enaltece a “política de camaradagem” a todos os que nele se reconhecerão, e dedica um “especial agradecimento” ao “reitor e aos professores de Filosofia Política da Universidade da Beira Interior”, na Covilhã, referindo que, no livro, podem ser encontrados “ecos” do que discutiram num Seminário sobre Carisma e Democracia”. “Mas é claro que o que aqui fica escrito só a mim vincula”, sublinha.

A Sextante Editora apresenta o novo livro, no dia 28 de outubro, pelas 18:30, no Auditório I da FIL – Centro de Exposições e Congressos de Lisboa

 

O livro parte da descoberta de José Sócrates por um dos pais da Sociologia, mas para chegar à sua tese sobre o carisma "o livro recua até à teologia de S Paulo, altura em que surge este conceito", indica a Sextante Editora. O tema do livro é, precisamente, o conceito de carisma na política.

“Nos anos oitenta, numa reunião da Comissão Política do PS e no final de um debate cujo tema já nem recordo, o líder Vítor Constâncio sugeriu que lêssemos um pequeno livro – O Político e o Cientista. “Está lá tudo!” – disse. Comprei-o no dia seguinte e li Weber pela primeira vez. Recordo a impressão que me causou e o que era novo para mim – ética da convicção e da responsabilidade, liderança carismática, vocação política. Mas o que mais persistentemente ficou no meu espírito foi a desconfiança do autor relativamente ao poder dos aparelhos burocráticos e a aversão ao regime de funcionários. A atual crise europeia levou-me a regressar a Weber e a este tema, cem anos depois. Esta é a razão do livro”, escreve o antigo primeiro-ministro numa na nota de intenções sobre o livro, que não tem prefácio.

Para Sócrates, mais do que a discussão de ideias e programas eleitorais, a política democrática é feita à medida do carisma, ou seja, da capacidade de liderança de cada político. E nota que essa ideia nem sempre foi vista como uma vantagem no cerne das democracias.

“Na ciência política, a questão do carisma é, no essencial, uma discussão sobre liderança. Durante muito tempo, na cultura política europeia este debate foi residual. Afinal, pensava-se que podíamos aperfeiçoar as democracias pondo de lado, com vantagem, a dimensão pessoal da política e substituindo-a pela discussão sobre ideias e programas. Qualquer valorização das questões da liderança ecoava como suspeita perante as regras da democracia. O fantasma dos totalitarismos carismáticos deixou uma longa herança. Este é o tema do livro.”

O Dom Profano – Considerações sobre o Carisma será apresentado ao público no dia 28 de outubro, na FIL - Centro de Exposições e Congressos de Lisboa. No dia anterior, chega às livrarias com a chancela da Sextante Editora.

Este é o segundo livro de José Sócrates. Depois de abandonar o Governo, em 2011, foi estudar Teoria Política no Institut d´Etudes de Paris, em França, tendo obtido o grau de mestre com uma dissertação sobre a tortura em democracia, que mais tarde transpôs para livro, intitulando-se A Confiança no Mundo – Sobre a Tortura em Democracia.

José Sócrates é um dos arguidos no processo Operação Marquês por suspeita de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Esteve detido preventivamente no Estabelecimento Prisional de Évora entre novembro de 2014 e setembro de 2015. O Ministério Público ainda não apresentou a acusação para os crimes que o acusa e que Sócrates nega.