O realizador português João Salaviza, que estreou quinta-feira, em Madrid, a sua primeira longa-metragem, "Montanha", diz que o público espanhol encontra "uma especificidade" e "uma força" no cinema português que não identifica no seu próprio cinema.

"Quando vêm falar comigo sobre o meu filme ou outros filmes de colegas portugueses, identificam sempre essa especificidade do cinema português como uma força que não conseguem identificar no cinema espanhol. E estas são palavras do público espanhol e não as minhas, embora concorde com isso", disse João Salaviza à Lusa, quinta-feira à noite, antes da estreia do filme "Montanha", na Casa da América, em Madrid.

"Montanha", que chega aos cinemas portugueses no dia 19 e tem uma antestreia no domingo, dia 08, no Lisbon & Estoril Film Festival, é um filme sobre David, um adolescente de 14 anos, que vive os primeiros amores, enfrenta um pai ausente e lida com um avô hospitalizado.

A primeira longa-metragem de Salaviza teve estreia mundial no festival de Veneza e acaba de ser premiado no Festival de Montpellier, em França, onde o filme terá estreia comercial em abril de 2016.

Em Espanha, passou no Festival de San Sebastian (País Basco), em Compostela (Galiza) e terá três dias de sessões em Madrid, integrado na 13.ª Mostra Portuguesa.

A exibição em salas espanholas antes das portuguesas não preocupa muito o realizador, que afirma que o cinema do século XXI "é global", mas reconhece que terá algumas "justificações" a dar a amigos e participantes no filme.

"Em Portugal já vou ter de me justificar perante os meus amigos e pessoas que trabalharam no filme sobre o porquê de fazermos cinco exibições em Espanha. Mas os filmes do século XXI são feitos a uma escala local, mas depois têm uma viagem por todo o Mundo", disse João Salaviza.

À margem da exibição, numa sala da Casa América bem composta de público, João Salaviza confessou que "cresceu", ao rodar a sua primeira longa-metragem, à semelhança do que acontece com o protagonista, David.

"Acho que [cresci com o filme]. O que é interessante no cinema é vivermos momentos determinantes nas nossas vidas sem termos consciência deles. O meu filme é um pouco isto. Acredito agora que foi fundamental para mim ter ido em 2006 para a Argentina, estudar cinema e ali reconciliar-me com o cinema português. Se calhar, daqui a dez anos, vou perceber a importância que este filme teve para mim e para o miúdo que eu filmei", afirmou.

No circuito comercial em Lisboa, disse o realizador, "Montanha" vai estar em "oito ou nove salas", um bom começo que augura uma visualização maior do que os filmes de outros colegas portugueses.

"Um filme como o 'Tabu', do Miguel Gomes, fazer 200 mil espectadores em França e dez e vinte vezes menos do que isso em Portugal, diz mais sobre o filme ou sobre o país? Por um lado, acho que há uma falta de tradição enorme de ver cinema - e não apenas português - em Portugal", contou.

Por outro lado, afirma que há um discurso que se vem repetindo - "e que começa nas instâncias superiores, no poder político e nas instituições", "contra o cinema português".

Para João Salaviza - premiado com a Palma de Ouro em Cannes, com a curta-metragem "Arena", em 2009, e o Urso de Ouro em Berlim, com outra "curta", "Rafa", em 2012 - trata-se de um "discurso muito facilista de que os realizadores portugueses estão muito de costas voltadas para o público".

"É um discurso que se repete há décadas. E é infundado, porque a prova é que os filmes circulam no mundo inteiro", concluiu.