O Nobel da Economia 2014, o francês Jean Tirole, esteve em Portugal em 2010, numa conferência promovida pelo Banco de Portugal, ainda antes do resgate da troika. Nessa altura, alertava já para a «extrema gravidade» do sobreendividamento do setor privado e dos bancos. 

Numa intervenção que abordou o endividamento da banca e dos países, refletindo sobre a regulamentação, as reformas e a responsabilidade das instituições, falou sobre o resgate grego, já encetado na altura, mas teceu igualmente considerações sobre Portugal, apontando a crise da dívida e e a falta de competitividade do país.

Foi mais longe, ao classificar de «problema bastante grave» o sobreendividamento das famílias e das empresas, bem como a excessiva alavancagem dos bancos. E alertou para o «perigo súbito» de os bancos portugueses poderem ser excluídos dos mercados globais.

Jean Tirole defendeu a necessidade de reformas no mercado de trabalho e em algumas fontes de crescimento da produtividade, como o turismo, que tinha um «potencial significativo». Apelou a um maior controlo orçamental – e esse ajustamento chegou com força um ano depois, com a entrada da troika em cena para o resgate financeiro, e com o Governo a querer ir mais além das exigências do FMI, Comissão Europeia e BCE.

O economista francês da Universidade de Toulouse, que também trabalhou no MIT dos EUA, resumiu, no final da sua apresentação, que as duas questões-chave para Portugal eram, assim, o sobreendividamento privado e da banca e a falta de competitividade.

A banca é, de resto, um dos setores de maior relevo nas suas investigações. Jean Tirole admite que «é muito difícil de regular», mas entende que o desafio está, mesmo, do lado dos Governos e do tipo de regulação que colocam em prática, para evitar colapsos como o do Lehman Brothers em 2008.

Esta segunda-feira, aos jornalistas, o laureado Jean Tirole explicou que, durante a crise, os bancos assumiram grandes riscos sem garantir a existência de colaterais, isto é, uma garantia em caso de incumprimento. A pergunta do milhão de dólares a que o economista pretende responder é sobre o equilíbrio que os governos devem encontrar para que isto não aconteça: um equilíbrio entre uma regulação excessiva, que bloqueia a inovação, e uma regulação demasiado frágil, que permite a acumulação de riscos sistémicos, defende.

Ou seja, coloca nos Governos uma responsabilidade acrescida ao lidar com fusões ou cartéis, e na regulação de monopólios ou oligopólios, para que, mais do minimizar consequências negativas para a economia, elas não cheguem a acontecer. Se pensarmos bem, muitas indústrias são dominadas por um pequeno número de grandes empresas ou até por um único monopólio. Essa realidade não é, de resto, nada desconhecida de Portugal. Da banca, à energia ou às telecomunicações, os exemplos são, agora, cada vez mais óbvios do que em 2010.