Por: Redacção | 14- 5- 2011 10: 50
Dias 3 e 4 (Directo marcado para Segunda, 9 de Maio)
Brejão, Odemira
+37° 34' 59.11", -8° 39' 55.06" *
A
primeira não correu mal. Julgamos já ter encontrado o ritmo certo. Arrancamos, chegamos, gravamos até aguentar. No dia seguinte
teremos a manhã para gravar planos em falta e montar o «esqueleto da peça» (o off, mais os vivos).
Almoça-se,
e a seguir dá para montar o (muito) que falta.
Na Estrada a caminho do Sul segue-se o legado de Thierry Roussell. Falaram-me
de quilómetros e quilómetros de estufas percorridas ao longo de inimagináveis horas num jipe.
Pessoalmente não tinha
memória de tamanha megalomania mas na verdade, há quase 20 anos e salvaguardadas as devidas distâncias, este foi o computador
«Magalhães» de um facilmente seduzido Cavaco enquanto Primeiro-Ministro. O playboy estrangeiro (Thierry), esse, veio, prometeu,
sacou empréstimos à União Europeia, ao Governo, à Caixa Geral de Depósitos e a quem mais conseguiu e desapareceu, em circunstâncias
obscuras e mal explicadas. Rezam as crónicas que os morangos afinal não se venderam a preços que compensassem o investimento.
Só que as marcas ficaram, doridas, por debaixo das cicatrizes de quem ainda aqui mora e um dia acreditou num futuro extraordinário,
onde os autocarros traziam gente aos milhares para transformar o chão de areia, quase praia, numa horta como nunca
antes se havia sonhado.
À chegada a Boavista dos Pinheiros metemos conversa com os velhotes sentados na rua, na pouca
sombra que resta à porta do café no pino do meio-dia. O Cabo Júlio guarda da tropa o nome, e da nossa investida a
promessa de um reencontro após o almoço, para nos apresentar alguém daqueles tempos. Meia-hora depois, se tanto, ei-lo!,
para desespero dos proprietários alemães, a entrar-nos pelo restaurante dentro com metade da aldeia. Ou pelo menos todos os
que trazem histórias para contar dos tempos da Odefruta. E fecha-se já a conta, e monta-se a câmara no meio do cruzamento,
e gravamos os depoimentos, uns atrás dos outros, a máquina a rodar em cima do tripé como um carrossel: «Próximo!»
Ainda
hoje fico impressionado com a dimensão do que sobrou e eu desconhecia. Nunca tinha visto tamanho esforço agrícola em Portugal.
Os quilómetros de estufas e campos verdejantes em plena costa alentejana voltaram a render, com investimentos agora devidamente
sustentados e produtos que nem chegam a passar pelos nossos supermercados, para poderem seguir directo para os mercados europeus,
em contra-relógio, antes que a frescura esmoreça. A nós mostraram-nos couves chinesas, saladas gourmet, fetos e floricultura,
90% para inglês (e alemão, e norueguês) ver, histórias de indesmentível sucesso.
Fica mais ou menos decidido que
este é o caminho a seguir. Não queremos mais histórias tristes; mas as de um País que apesar de tudo resiste (se existe um
discurso comum a todas as pessoas com que nos cruzámos ao longo deste mês é mesmo o pedido de que o Governo saia da frente,
já que pouco mais parece fazer que empatar).
No entretanto, horrorizados com a nossa própria imagem deformada pelo
olho-de-peixe da GoPro (e vá lá, pela triste realidade) a deixa de vídeo para cada peça nos e-mails para a Redacção também
já se fixou em «dois gajos com mau aspecto dentro de um carro». Não vale a pena reescrever. E assim será até ao fim.
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