O cardeal José Policarpo, que morreu quarta-feira, teve um papel interventivo na sociedade e, face à crise económica, mostrou-se preocupado com os sacrificios exigidos, chegando a advertir que os bispos não podiam ficar em silêncio.

«Estou muito preocupado com Portugal», disse em setembro de 2012 o cardeal sobre a situação do país e «os sacrifícios» pedidos aos portugueses.

Esta não foi a única vez que expressou as suas posições sobre este assunto. Em fevereiro de 2013, em entrevista à RTP1, defendeu que a sociedade portuguesa «aguenta tudo», no que toca à austeridade, e lembrou que o poder não deve ser usado indiscriminadamente «para fazer aquilo que não é preciso ser feito».

Na mesma entrevista criticou a gente do meio político «que está calada», sustentando que «não há sentido de bem comum» se as pessoas não se sentirem «corresponsáveis» na sua comunidade.

Sobre os políticos, causou polémica quando, em 2011, afirmou que «ninguém sai da política de mãos limpas».

Vaticinou que a crise na Europa «está para durar» e proclamou a necessidade de uma «revolução cultural» para melhorar a sociedade. Ainda assim, reconheceu a inevitabilidade do resgate financeiro de Portugal e criticou os sindicatos por o contestarem.

José da Cruz Policarpo alertou em várias ocasiões para os interesses materiais que dominam a sociedade, considerando que se vive «num tempo em que se fez da qualidade de vida um valor a conseguir».

Acerca do papel da Igreja Católica em tempos de crise, defendeu que «tem de estar presente, atenta a quem sofre», e assumiu que esta «foi sofrendo um desgaste» e que nela se têm passado «coisas muito graves e tristes».

Contudo, apontou que a Igreja não é só um repositório de «pecados e fraquezas», tem «uma força silenciosa, a de muitos milhões de cristãos que procuram ser fiéis».

A Igreja tem «uma mensagem perene», afirmou, e argumentou que «não tem que andar ao ritmo das mudanças do mundo».

«Há um pressuposto de que a Igreja tem que mudar ao ritmo das mudanças do mundo e não. A Igreja tem uma mensagem perene, acredita nela, e tem valores perenes, e acredita neles», disse José Policarpo, em fevereiro do ano passado, quando questionado sobre a atualidade do Concílio Vaticano II perante questões fraturantes da sociedade, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto.

Para José Policarpo, a doutrina da Igreja tem uma mensagem que «ajuda a corrigir e a denunciar os exageros antropológicos», como as «modernices» de pessoas do mesmo sexo puderem constituir família, e sublinhou que a civilização ocidental «acabará por ser vítima dessas mudanças».

Para o então cardeal-patriarca de Lisboa, a despenalização do aborto, em 2007, foi «um atropelo à civilização» e a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo «um passo chocante» na evolução da sociedade portuguesa, criticando o Presidente da República, Cavaco Silva, por ter promulgado o diploma.

Sobre o sacerdócio feminino, José Policarpo advogou que «a mulher é uma força enorme na Igreja», mas ressalvou que as mulheres «mais empenhadas» na instituição «não têm essa reivindicação».

O seu patriarcado ficou ainda marcado por outras polémicas, nomeadamente quando alertou as jovens portuguesas para os riscos de se casarem com muçulmanos, observação mal recebida numa altura em que as questões do diálogo interreligioso estavam na ordem do dia.

José Policarpo, que participou na eleição do papa Francisco, chegou a ser apontado como sucessor de Bento XVI, que resignou em fevereiro 2013.

Na altura considerou a hipótese «pouco provável» e disse, em jeito de brincadeira, que renunciaria "logo a seguir" se fosse escolhido pelos seus pares.

José da Cruz Policarpo, que quarta-feira morreu aos 78 anos, esteve à frente do patriarcado de Lisboa durante 15 anos, tendo apresentado a renuncia ao cargo em 2011 por limite de idade.

Em junho de 2013 deixou o Patriarcado, tendo-se retirado para uma casa de oração em Sintra, escreve a Lusa.