O BCE poderá vir a tomar medidas direcionadas para fazer conseguir uma transmissão adequada da política monetária e fazer chegar o crédito à economia, admitiu o presidente do banco central, Mario Draghi.

O responsável disse hoje, no Fórum do BCE que decorre num hotel em Sintra (junto a Lisboa), que a falta de crédito é um obstáculo à recuperação da economia, em especial nos países europeus em dificuldades. E, falando da resposta que a política monetária pode dar, disse mesmo que o BCE pode vir a decidir avançar com medidas específicas.

«Uma situação intermédia é uma em que constrangimentos da oferta de crédito interfiram com a transmissão de política monetária e enviesem os efeitos pretendidos. Isto iria exigir medidas direcionadas para ajudar a aliviar as restrições de crédito», afirmou Mario Draghi.

Neste momento, afirmou, é preciso perceber se o baixo nível de empréstimos se deve à baixa procura pelos clientes ou a restrições na oferta pelas instituições financeiras.

Segundo explicou, pouca procura de crédito no início da recuperação económica «não é incomum», mas a recuperação deve levar a mais pedidos de empréstimos, fundamentais para a recuperação ganhar força.

Para isso, disse, é «altamente desejável que os bancos avancem com o ajustamento estrutural dos seus balanços para que possam responder à procura de crédito».

É precisamente por esse motivo, explicou, que o BCE está a levar a cabo o exame ao balanço dos bancos, antes de passar assumir a supervisão única (um dos pilares da futura União Bancária), em novembro deste ano.

«Só os bancos que têm totalmente contabilizadas as perdas e têm capital suficiente podem assumir riscos outra vez e, portanto, originar empréstimos em condições normais», disse.

Para Mario Draghi, para já, só o facto de a avaliação do BCE estar em curso já teve efeito na reavaliação de ativos, no provisionamento e levantamento de capital pelos bancos, o que deverá conduzir à concessão de novos empréstimos assim que o exame estiver concluído.

O presidente do BCE disse ainda que, precisamente com o objetivo de reanimar o crédito, a instituição tem apoiado publicamente medidas de securitização (agrupamento de crédito ou dívida em títulos negociáveis nos mercados), para remover constrangimentos de capital do balanço dos bancos e estes voltarem a conceder crédito em níveis adequados.

A necessidade de fazer chegar o crédito à economia tem levado vários analistas a olharem para o exemplo do Banco de Inglaterra, que tem regras que fazem depender parte do acesso à liquidez do banco central ao financiamento que a banca concede às empresas.

Neste sentido, tem-se vindo a especular sobre a possibilidade de o BCE lançar uma nova linha de financiamento de mais longo prazo à banca, mas com condições específicas.