Yakiri Rubi, de 20 anos, denunciou à polícia da Cidade do México que tinha sido raptada por dois homens que a agrediram e violaram. No entanto, ao invés de ser tratada como vítima, a jovem foi acusada de homicídio e levada para a prisão de mulheres em Santa Martha Acatitla.

A rapariga, com 48 quilos, foi acusada de matar um homem, de 38 anos, chamado Miguel, com «1,80 de altura e mais de 90 quilos», tendo passado 10 horas na esquadra, onde lhe fizeram curativos «mal feitos» nas mãos e nos braços e nos outros golpes do corpo, como relatou a advogada Ana Catiria Suárez Castro ao «El País».

De acordo com o depoimento da jovem, o agressor estava acompanhado do seu irmão mais novo, Omar, de 33 anos, e ambos levaram-na para um albergue na colónia Doctores, um bairro próximo do centro da capital.

«Sobe magra, sobe», disseram-lhe, minutos antes de a raptar na sua mota. Levaram-na sob a «ameaça de uma navalha» para «o motel Alcazar, onde os suspeitos entraram com familiaridade, sem pedir a chave», revelou a advogada, acrescentando que os dois a despiram e agrediram até que Miguel a violou.

«Numa das investidas, ela conseguiu empunhar a arma e o agressor cortou-se na zona da aorta», afirmou.

Foi este golpe que acabou por levar Yakiri a ser acusada do homicídio de Miguel e a permanecer na esquadra durante 10 horas, até ser levada para a prisão, onde se encontra detida.

«Queremos que isto não se repita», pede o pai

«Não queremos apenas a minha filha livre, queremos criar o precedente, queremos que não se repita». A frase é de José Luís, pai de Yakiri, que revela ainda que a filha pediu perdão ao ver o violador sangrar.

De acordo com as declarações de Yakiri, após o golpe, Miguel vestiu as calças e desapareceu de mota com o irmão. Horas mais tarde, enquanto a jovem prestava declarações, Omar apareceu na esquadra e acusou-a de ter matado o seu irmão, afirmando que o encontrou em casa manietado e sem vida.

Depois de ter feito a denúncia, Omar desapareceu, não se sabendo mais nada dele. Já Miguel tinha 16 acusações contra si no dia em que o crime aconteceu.

Imprensa cor-de-rosa diz ser crime passional

No dia seguinte, a imprensa cor-de-rosa publicava a fotografia de Yakiri, chamando-lhe assassina e dizendo que tudo se tratava de um crime passional, pois namorava com Miguel.

«Como é que a minha filha, tão magra, ia fazer isto? Não é verdade, eles não se conheciam e a minha filha é lésbica. Nessa tarde, saiu no metro Doctores às sete e meia para se encontrar com a namorada», afirma o pai da jovem.

José Luís acusa as autoridades de tratarem o caso com irregularidades graças à influência de Miguel no bairro.

«A minha filha foi detida e só soubemos às 11h30 do dia seguinte. Silenciam-na. Depois devolvem o telemóvel e dizem-lhe "faz tu a chamada", mas nos bunkers não há rede, e quando ela pede para falar com a família, dizem-lhe que é muito tarde, que é melhor ser no dia seguinte. Quando acorda na terça-feira, a resposta muda: "a tua família já sabe". Quando chegamos à esquadra dizem-nos que já foi levada para a prisão, mas não, ainda estava ali», revelou o pai da jovem, natural do bairro de Tepito, uma das zonas mais violentas da Cidade do México.

Defesa tem de apresentar provas documentais

Esta terça-feira termina o prazo para que a defesa apresente as provas documentais antes do juiz ler a sentença de Yakiri. A jovem, que está presa há uma semana, recebeu pela primeira vez a visita de um psicólogo esta segunda-feira.

O seu caso ganhou força nas redes sociais e tem o apoio de várias organizações - Mukira, Centro de Direitos Humanos das Mulheres, Rede Nacional de Género e Economia e Justiça para as Nossas Filhas.