No início de Março, divulgou-se na comunicação social uma lista com nomes de jihadistas do Estado Islâmico, provenientes de países ocidentais. Alguns teriam ascendência portuguesa. Todos viviam em cidades europeias, tendo-se subitamente convertido ao Islão. A Europa mostrou-se perplexa com a decisão de vida destes jovens e a invocação de Deus pelo fanatismo terrorista fez reemergir o tema das heranças cristãs da Europa. Houve até quem dissesse que o mundo “precisa de um novo Churchill”, que nos convença a todos que a democracia e a justiça são capazes de enfrentar um inimigo determinado a conquistar o mundo, trazendo morte e destruição.

Mas, e se lhe disséssemos que Sir Winston Churchill, primeiro-ministro britânico que levou a Grã-Bretanha à vitória na II Guerra Mundial e considerado uma das personagens mais significativas do mundo ocidental no século XX, se sentiu atraído pelo Islão?

A edição online do jornal britânico The Independent recupera, esta sexta-feira, a notícia de que a família de Winston Churchill lhe pediu para "lutar contra" o desejo de se converter ao Islamismo.

De acordo com uma carta descoberta por um historiador da Universidade de Cambridge, Warren Dockter, o primeiro-ministro estaria aparentemente tão fascinado com o Islão e a cultura do Oriente que a família lhe escreveu para o tentar convencer a não se tornar muçulmano.

Numa carta datada de agosto de 1907, a futura cunhada de Churchill escreveu-lhe: "Por favor, não se converta ao Islão; Tenho notado na sua disposição uma tendência para se orientalizar, tenho realmente.”

 

“Se você entrar em contacto com o Islão, a sua conversão pode acontecer com maior facilidade do que poderia supor, o apelo do sangue, você sabe o que quero dizer, lute contra ele."

A carta foi escrita por Lady Gwendoline Bertie que mais tarde se casou com o irmão de Churchill, Jack Churchill.

“Winston Churchill nunca considerou seriamente converter-se", disse Warren Dockter ao The Independent.

"Por esta altura, ele era mais ou menos um ateu. Tinha um fascínio pela cultura islâmica, que era comum entre os vitorianos”, acrescentou.

Churchill teve oportunidade de observar a sociedade islâmica quando serviu como oficial do Exército britânico no Sudão. Numa carta enviada a Lady Lytton em 1907, Churchill escreveu que "desejava ser" um paxá, que era um governador de província no Império Otomano.

Winston Churchill chegou mesmo a vestir-se em privado com roupas árabes, um entusiasmo que partilhava com um bom amigo o poeta Wilfrid S. Blunt. Mas Warren Dockter defende que a família de Churchill nunca teve de se preocupar com o seu interesse pelo Islão.

"[Lady Gwendoline Bertie] estava preocupada porque Churchill ia fazer um périplo por África e ela sabia que Churchill ia encontrar o amigo Wilfrid S. Blunt, que era um reconhecido arabista, anti-imperialista e poeta. Embora Blunt e Churchill fossem amigos e, às vezes, se vestissem como árabes para as festas excêntricas que Blunt dava, eles raramente estavam de acordo", diz o historiador.

Em 1940, quando Winston Churchill liderava a luta da Grã-Bretanha contra a Alemanha nazi, ele apoiou os planos para construir o que se tornou na Mesquita Central de Londres em Regent’s Park. O primeiro-ministro britânico pôs de lado 100 mil libras  (quase 126 mil euros) para o efeito, na esperança de obter o apoio de países muçulmanos na guerra. Mais tarde, Churchill disse à Câmara dos Comuns que "muitos dos nossos amigos em países muçulmanos" tinham manifestado apreço por aquele "presente".

Mas embora admirasse o Islão, Winston Churchill não era acrítico.

"O facto de, na lei muçulmana, cada mulher deva pertencer a um homem como sua propriedade absoluta, assim como uma criança, uma esposa ou uma concubina, vai atrasar a extinção final da escravidão até que a fé islâmica deixe de ser uma grande potência entre os homens ", escreveu o primeiro-ministro em 1899 no livro sobre o Sudão, The River War.

"Individualmente os muçulmanos podem ter qualidades esplêndidas, mas a influência da religião paralisa o desenvolvimento social daqueles que a seguem. Nenhuma outra força retrógrada existe no mundo. Longe de ser moribunda, o Islamismo é uma fé militante e proselitista”, escreveu ainda Churchill.