A polícia sabia que havia um único autor para as dezenas de violações ocorridas nas margens do Rio Sambre, quer na França quer na Bélgica. As amostras de ADN encontradas nas vítimas não deixava margens para dúvidas: era a mesma pessoa.

As autoridades deram-lhe muitas alcunhas: “o violador do Sambre”, “o violador da manhã”, “o violador do gorro” ou “o violador da corda”. Agia sempre da mesma maneira: atuava pela manhã, tapava o rosto com um gorro e atava as mãos das vítimas com uma corda. Agredia mulheres e também raparigas menores.

Mas faltava um rosto e um nome. Durante mais de duas dezenas de anos, as autoridades tentavam chegar ao homem que fez pelo menos 19 vítimas nos últimos 22 anos, em França e na Bélgica. Conseguiram-no na última segunda-feira e o homem acabou por confessar ser o autor de mais de 40 crimes nos últimos 30 anos.

Mas a surpresa das autoridades não se ficou pela confissão e pelo número de crimes, muito superior ao que lhe era atribuído. Dino Scala era o último dos suspeitos. O francês detido na última segunda-feira na Bélgica, depois de cometer mais um crime, era “um homem normal”, como lhe chamou o investigador encarregue do caso. Um pacato pai de família, de 56 anos, muito conceituado na comunidade de Pont-sur-Sambre, onde residia e chegou a treinar uma equipa de futebol. Tem três filhos e dois netos. Foi avô há pouco tempo. De acordo com o jornal La Voix du Nord trabalhava no departamento de manutenção de uma empresa local.

Não encaixa com a sua personalidade. Era muito querido. Estamos completamente chocados”, descreveu Michel Détrait o autarca de Pont-sur-Sambre, uma localidade de 2500 habitantes, onde Scala vivia com a família há mais de 20 anos.

Segundo o Le Parisien, era descrito como o vizinho e amigo que todos queriam ter: “muito atencioso, com jeito para a bricolagem, ocupava-se diariamente do seu padrasto doente e era um grande trabalhador”.

Foi um jogador de bom nível. Jogava como defesa. Foi treinador e dirigente do clube de futebol local e demitiu-se por divergências com outros dirigentes”, disse uma fonte próxima ao jornal francês.

O tesoureiro do clube de Pont-sur-Sambre afirmou à France3 que nunca lhe ouviu uma palavra desadequada ou um gesto maldoso.

Depois de detido, Scala disse aos investigadores que começou a atacar mulheres em 1988, oito anos antes de a polícia começar a procurar. A impunidade do homem acabou no último dia 5 de fevereiro, depois de uma rapariga ter sido violada na localidade belga de Erquelinnes, a 26 quilómetros de Pont-sur-Sambre, quando se dirigia para a escola.

O modus operandi no caso de Erquelinnes alertou as autoridades belgas, mas também as francesas. Era o mesmo do do “violador do Sambre”. “Atuava pela manhã, bem cedo, atacava as vítimas pelas costas, usava luvas e mascarava todo o rosto ou parte dele com um gorro”, resumiu o procurador de Valenciennes, Jean-Philippe Vicentini.

Scala foi tramado pelas câmaras de segurança situadas junto ao local do ataque. Um "Peugeot 206 cinza, matriculado em France", de acordo com o jornal Le Parisien, foi detetado nas filmagens e os investigadores belgas avisaram a PJ de Lille, em França.

Dino Scala foi detido na última segunda-feira, quando se preparava para ir trabalhar, dentro do mesmo carro filmado 20 dias antes pelas câmaras de segurança belgas. O ADN recolhido aquando da detenção correspondia ao mesmo que foi encontrado nas quase duas dezenas de vítimas das violações que a polícia investigava.

Reconheceu todos os crimes com os quais foi confrontado e muitos mais. Disse aos investigadores que “atuava por impulsos que não podia controlar”. Na lista das suas vítimas, há meninas com apenas 13 anos.

Esta quarta-feira, foi acusado oficialmente de 19 violações e agressões sexuais e a polícia prepara-se para reabrir agora outros casos que nunca foram resolvidos.