O apelo do tenente-coronel Alexandre Quintino, comandante que já defendeu a legitimidade do protesto da polícia militar que se mantém aquartelada, está a marcar as últimas horas no Estado de Espírito Santo.

Mais de uma centena de pessoas já foram assassinadas desde sábado na área metropolitana de Vitória, quando a paralisação da polícia militar começou.

Agora, o tenente-coronel Quintino fez um apelo enérgico e emocionado aos efetivos da polícia militar para que suspendam o protesto e voltem às ruas.

Pelo amor de Deus, vamos trabalhar, vamos para a rua, esse movimento mostrou que nós somos capazes, esse movimento mostrou a força da PM", disse o tenente-coronel, numa mensagem difundida pela Rede Globo.

O discurso foi feito num quartel, a sul de Vitória, em Cachoeiro de Itapemirim, com o comandante a considerar que os efetivos da polícia militar já mostraram que podem conseguir o que pretendem.

A gente falou o que tinha que falar, a sociedade sentiu a nossa falta. Meu Deus, olha o que está acontecendo na rua. Vamos começar aqui, vamos voltar para as ruas", afirmou Quintino.

Cidade sem lei 

Cerca de dois mil soldados do exército e força aérea estão já na capital do Estado de Espírito Santo, localizado a norte do Rio de Janeiro. Desde segunda-feira que a tropa foi mobilizada para patrulhar as ruas, mas tem sido incapaz de controlar a violência, o crime e os assaltos.

A cidade, aliás o Estado inteiro, está a saque. A polícia não existe, a polícia deixou de patrulhar", referiu Manuel Casaca, um português residente nos arredores de Vitória, falando em direto à TVI.

Sem números oficiais, o sindicato da polícia civil assegura que 106 pessoas já morerram, devido à onde de violência e crime que se instalou em Vitória. Há vários dias que na morgue do Instituto de Medicina Legal, já não há câmaras frigoríficas para depositar os cadáveres.

A imprensa brasileira relata inúmeros casos de assassínios cometidos à vista de todos, tal como muitos moradores, que continuam fechados em casa, filmam e colocam nas redes sociais a verdade crua dos acontecimentos.

No município de Cariacica, nos arredores de Vitória, têm ocorrido crimes de morte, cujas imagens podem impressionar.

Há vários dias que os moradores se mantêm em casa. As maioria das lojas continuam fechadas, tal como os bancos, postos de saúde e escolas, enquanto os transportes funcionam esporadicamente.

Ninguém vai trabalhar. Não há transportes, ninguém vai trabalhar. As pessoas não trabalham em casa. Trabalham a quatro, cinco quilómetros de distância, a dez, vinte. Está tudo fechado. O comércio está fechado", relatou o emigrante Manuel Casaca, há alguns anos a viver em Espírito Santo.

Quem se aventura nas ruas, desde sábado, além da tropa e da polícia civil, são os bandos de criminosos e os mais incautos.

Tropa reforçada

No início da crise, que permitiu que a onda de crime tomasse conta de Vitória, está o facto da polícia militar ter ficado aquartelada, com as saídas dos quartéis bloqueadas por familiares. É forma de driblar a impossibilidade legal dos agentes fazerem greve, por melhores salários e subsídios.

O governador estadual de Espírito Santo viu-se obrigado a pedir ao governo do Brasil o envio de militares para controlar as ruas. Desde segunda-feira que a tropa começou a chegar, mas pelo que se vê, até ao momento, não tem chegado para todas as ocorrências.

Moro a 20 quilómetros de Vitória. Não se vê polícia. A polícia nacional não se vê. A tropa, passou um carro anteontem com militares. Passou, devagar, mas nem parou. Tinha acabado de ser assaltada uma loja e não foram sequer verificar", contou o português Manuel Casaca à TVI.

Quarta-feira, o governador do Estado apelou ao "bom senso" dos polícias, assumindo, contudo, não ter dinheiro para satisfazer as suas reivindicações. À noite, segundo informação da Rede Globo, houve uma primeira ronda negocial entre o governo de Espírito Santo e familiares dos agentes. Essas conversas deverão continuar.

As negociações poderão ser a chave para que aos poucos a situação volte à normalidade no Estado brasileiro de Espírito Santo, a par dos reforços militares.

Ou os polícias militares conseguem chegar a um acordo, ou então as coisas vão-se complicar imenso. Porque os bandidos vêm lá dos seus locais, a bandidagem é imensa e eles atacam, assaltam as pessoas na rua, roubam os telefones, roubam tudo o que puderem", considerou o português Manuel Casaca.

A situação verificada na área metropolitana de vitória e um pouco por todo o Espírito Santo levou mesmo a um reforço das ações no vizinho Estado do Rio de Janeiro.

De acordo com a Rede Globo, batalhões da polícia militar criaram um cordão de segurança na fronteira entre os dois Estados, para evitar que a violência alastre a sul.