Uma jovem de 16 anos foi violada por um grupo de 30 homens no Rio de Janeiro, Brasil. O crime foi partilhado em vídeo nas redes sociais e alguns dos violadores surgem com o rosto visível nas imagens.

O vídeo em questão tem cerca de 40 segundos e mostra a jovem deitada, enquanto os suspeitos conversam entre si. “Engravidou de 30”, pode ouvir-se um dos suspeitos.

Para além das milhares de partilhas que o vídeo teve, um problema maior surge associado: a impunidade dos criminosos, como contou à BBC Brasil a procuradora e coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (GEVID), do Ministério Público do Estado de São Paulo, Silvia Chakian, especialista na área.

[Este caso] Mostra a certeza total da impunidade dos criminosos, que agem em grupo e que gravam e publicam a própria prova do crime que praticaram. Mostra que não estão preocupados com eventuais responsabilizações, nem com a Justiça.”

Uma fotografia partilhada no Twitter, de um dos suspeitos, identifica, inclusive, o rosto do homem à frente da jovem.

Um deles revela até a identificação, o rosto. Qual é a mensagem que ele está a passar? É a de 'eu não acredito na lei, na polícia, na Justiça'. Essa mensagem não pode passar para a sociedade", defendeu Silvia Chakian "O [episódio] mostra que praticar um crime desta natureza é motivo de vaidade, de ser ostentado.”

Uma impunidade que remete para a Índia, onde os crimes sexuais contra as mulheres, sejam adultas ou menores, autóctones ou estrangeiras, são uma realidade constante, mas que, afinal, também acontecem no Brasil com a mesma gravidade.

As pessoas falam da Índia e emocionam-se com cada caso de violação que acontece lá, mas a Índia é aqui. A nossa realidade é similar", indicou.

Quanto a este caso concreto, o problema está, acredita a procuradora, na sociedade, porque de entre os 30 homens não houve um a tentar impedir o crime.

Não existem 30 monstros juntos. Não existe patologia nisso. É uma questão cultural. São 30 pessoas que participaram no crime e nenhuma delas agiu para evitar que aquele crime acontecesse. Isso revela uma sociedade criminosa e violenta contra a mulher. Que vê o corpo da mulher como um objeto para ser usufruído pelo homem", apontou.

No Brasil, uma mulher é violada a cada 11 minutos, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2015, o país registou 47.646 casos de violação.

A exposição deste caso está, no entanto, a mobilizar a opinião pública, com centenas de pessoas a denunciar os autores do vídeo ao Ministério Público, que também está a investigar os utilizadores que partilharam o vídeo nas redes sociais. Até quinta-feira, o Ministério Público tinha recebido já mais de 800 denúncias.