A revolta contra a morte de um adolescente negro, no Estado norte-americano de Missouri, tem saído às ruas desde domingo na localidade de Ferguson, subúrbio da cidade de Saint Louis. A noite de quarta-feira foi a mais violenta nos confrontos entre manifestantes e a polícia. Estiveram na rua cerca de 350 manifestantes, alguns dos quais atiraram pedras contra o corpo policial presente. A polícia ripostou com o disparo de bombas de fumo e gás lacrimogéneo. Cerca de 10 pessoas acabaram detidas, entre elas dois jornalistas.

De acordo com a Reuters, os distúrbios começaram no domingo, depois de uma vigília por Michael Brown, de 18 anos, que faleceu no sábado. Os cidadãos acusam a polícia de uma atitude racista, uma vez que, de acordo com testemunhas oculares da morte do adolescente negro, um oficial disparou sobre o rapaz sem que este estivesse armado ou a oferecer qualquer resistência. Mas a versão do chefe de polícia de St. Louis é diferente: Jon Belmar afirma que Brown foi morto depois de agredir o agente da polícia e tentar roubar-lhe arma.

«Estou cansado de ser maltratado por causa da minha cor de pele. Estou cansado da brutalidade com que a polícia nos trata», lamentou um dos manifestantes, de 18 anos, citado pela Reuters. «Vou continuar aqui, noite após noite, até chegarmos à justiça», acrescentou.



O Presidente dos Estados Unidos está de férias na ilha Martha Vineyard, em Massachusetts, mas tem acompanhado os desenvolvimentos da situação através do procurador-geral dos EUA, Eric Holder, de acordo com informação divulgada pela Casa Branca.

Barack Obama reagiu por escrito à morte do rapaz, que caracterizou de «desoladora», apelando à «calma, compreensão e reflexão», em memória de Michael Brown. «Sei que os acontecimentos dos últimos dias provocaram sentimentos fortes», afirmou. «Mas à medida que se vão sabendo mais detalhes peço a todos em Ferguson, e por todo o país, para lembrarem este jovem através de reflexão e compreensão».

As autoridades anunciaram entretanto que não iriam divulgar o nome do polícia que disparou invocando risco para a segurança do agente.

Na segunda-feira, o chefe da polícia do condado de St. Louis, Jon Belmar, pediu que a população mantivesse a calma e a confiança no trabalho das autoridades. «Compreendo que as pessoas estejam céticas, mas peço que sejam razoáveis e percebam que uma investigação demora tempo para ser bem feita», declarou. O trabalho da polícia está a ser revisto pelo FBI, acrescentou.

Jornalistas detidos por filmar intervenção da polícia

Nem os jornalistas se salvaram da intervenção do contingente de forças antimotim que foi destacado para as ruas de Ferguson. Os agentes recorreram a gás lacrimogéneo e a disparos com balas de borracha para travar a fúria dos manifestantes e uma equipa de reportagem da Al Jazeera America foi atingida, na quarta-feira, quando pensava estar em zona segura.

O ataque por parte das forças de segurança a jornalistas enquanto tentavam filmar o protesto em curso não foi o único. Um pouco antes, Wesley Lowery, um repórter do «Washington Post», e Ryan Reilly, do «Huffington Post», foram presos quando estavam a comer num restaurante de «fast food» juntamente com outros colegas.

Os profissionais estavam a trocar as baterias das câmaras e outro material e a preparar-se para sair para a rua em reportagem, quando foram surpreendidos pela polícia, que os mandou sair do local sem qualquer explicação. Wesley Lowery conta que começou a gravar o que estava a acontecer. Um oficial ordenou-lhe que parasse de gravar e saísse do restaurante, mas o jornalista continuou a filmar ao mesmo tempo que perguntava se não tinha o direito de fazê-lo. Em resposta, a polícia deteve-o e algemou-o.

Wesley Lowery foi libertado esta quinta-feira, sem qualquer acusação formal ou explicação. De acordo com o jornal, não existe relatório de detenção e foi negada a identificação dos polícias que o detiveram.