Thamsanqa Jantjie, de 34 anos, é acusado de ter gesticulado «coisas sem noção» durante a cerimónia de homenagem a Nelson Mandela na passada terça-feira.

Em declarações ao jornal «Star», o falso intérprete afirma ser um «campeão da linguagem gestual» e que teve um ataque de esquizofrenia durante as cerimónias.

«Não havia nada que eu pudesse fazer. Estava sozinho numa situação muito perigosa. Tentei controlar-me para não mostrar ao mundo o que estava a acontecer», afirmou Jantjie.

O falso intérprete afirmou ainda que viu «anjos», ouviu vozes na sua cabeça e que teve um passado violento - sem revelar mais pormenores - e que por isso mesmo tentou não entrar em pânico porque «havia pessoas armadas» à sua volta.

O governo da África do Sul já admitiu que a contratação de Thamsanqa Jantjie foi um «erro» e anunciou que está a «tentar descobrir o que aconteceu com o intérprete».

De acordo com Hendrietta Bogopan-Zulu, ministra sul-africana, o governo está a investigar por que Jantjie não foi vetado antes do memorial, uma vez que esteve lado a lado com grandes líderes mundiais e familiares de Mandela.

Já Jackson Mthembu, porta-voz do Congresso Nacional Africano afirmou, à «NBC News» esta quinta-feira, que está preocupado que as qualificações e o historial médico de Jantjie não tenham sido tidos em consideração antes de lhe dar acesso à cerimónia.

«Nós não sabíamos que ele estava a ser tratado [por esquizofrenia]. Ele não nos informou. É outra coisa que nos preocupa porque estamos a saber disso pela primeira vez. Este homem esteve próximo de muitos presidentes, incluindo o nosso. Estamos preocupados por o termos contratado para os nossos serviços. Estamos mesmo preocupados», afirmou.

«Há demasiados terroristas naquela região»

James Cavanaugh, analista de segurança da NBC News, afirmou que ficou incomodado com tantas perguntas sobre como uma pessoa consegue ter acesso facilmente aos líderes mundiais.

«Não devia estar lá uma pessoa que não está completamente controlada e que eles não sabem exatamente quem é. Há demasiados terroristas naquela região para se dar oportunidade a uma pessoa que não é muito conhecida estar próxima de grandes líderes mundiais», afirmou Cavanaugh.

Já o porta voz da Casa Branca, Josh Earnest, minimizou o incidente.

«É uma pena que um serviço dedicado a homenagear a vida e a celebrar o legado de um dos grandes líderes do século XX tenha sido noticiado por este e outro par de questões menos importantes do que o legado de Nelson Mandela», afirmou Earnest aos jornalistas, esta quarta-feira.

Jantjie recebeu 65 euros pelo trabalho

Thamsanqa Jantjie revelou à «Talk Radio 702» que é empregado numa companhia chamada SA Intérpretes. No entanto, a empresa escusou-se a comentar o caso à «NBC News».

O falso intérprete terá recebido 65 euros por ter aparecido no memorial de Mandela.

A Federação de Surdos da África do Sul afirmou, nesta quarta-feira, que já tinha apresentado uma queixa formal em 2012 por uma interpretação num outro evento.

O porta-voz do Congresso Nacional Africano, Mthembu, afirmou que não tinham conhecimento desta reclamação e que Jantjie apareceu como intérprete de linguagem gestual em vários eventos políticos no passado.

«O CNA vai olhar para o que aconteceu e para o que é agora do conhecimento público», acrescentou.

Empresa desapareceu

Os donos da empresa que empregava o falso intérprete desapareceram, revelou a ministra Hendrietta Bogopane-Zulu à BBC.

De acordo com a ministra, Thamsanqa Dyantyi foi contratado à SA Intérpretes e a após o evento a empresa desapareceu. No entanto, Hendrietta não culpa apenas a empresa por ter aconselhado Dyantyi para o evento.

«Ele estava a falar Xhosa. Inglês era demasiado para ele», afirmou, acrescentando que «há centenas de dialetos na linguagem gestual».

Para a ministra, não há razão para o país se sentir envergonhado pelo que aconteceu na cerimónia.