As inundações da última semana na região dos Balcãs afetaram um quarto da população de quatro milhões de pessoas da Bósnia-Herzegovina e dezenas de milhares nas vizinhas Sérvia e Croácia. A escala da catástrofe levou os governantes bósnios a fazer comparações com a guerra de 1992-95, quando «muitas pessoas perderam tudo» e em que mais de um milhão foi expulsa pela limpeza étnica.

De acordo com a agência Reuters, só na Bósnia, cerca de 500 mil pessoas abandonaram as casas para fugirem à subida das águas, após três dias em que choveu o que costuma chover em três meses naquela região. Na vizinha Sérvia, são pelo menos 25 mil as pessoas que se viram forçadas a procurar refúgio em zonas mais elevadas.

Mas o número de pessoas afetadas pelas cheias é muito superior. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Bósnia-Herzegovina, Zlatko Lagumdzija, disse esta segunda-feira que pelo menos um milhão de pessoas, ou seja mais de um quarto da população do país, ficou sem acesso a água potável, depois de as chuvas torrenciais terem provocado mais de dois mil deslizamentos de terras. Na Sérvia, cerca de 100 mil pessoas ficaram sem eletricidade.

«As consequências das cheias são aterrorizantes», afirmou Zlatko Lagumdzija, em conferência de imprensa.

«A destruição física não é menor do que a destruição causada pela guerra. Durante a guerra, muitas pessoas perderam tudo; agora, voltaram a ficar sem nada», lamentou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Bósnia-Herzegovina ao sublinhar os efeitos das maiores inundações dos últimos 120 anos na região.

A descoberta de um corpo no norte da Bósnia elevou esta segunda-feira o número de mortos na região a pelo menos 38. A cifra é provisória e deve aumentar à medida que as equipas de socorro percorrem as zonas afetadas em busca de mais vítimas.

Deslocamento de minas e proteção das centrais

As autoridades da Bósnia-Herzegovina também se mostram preocupadas com o risco apresentado pelas minas enterradas durante a guerra de 1992-95. O organismo responsável pelas operações de desminagem no país, o BHMAC, emitiu um aviso público a alertar para «a possibilidade de as cheias e os deslizamentos de terras terem movido alguns campos minados e arrancado sinais de aviso».

Na Sérvia, uma das principais preocupações é agora a segurança de duas centrais elétricas, localizadas nos arredores da capital. A maior delas, a central Nikola Tesla, a 30 quilómetros de Belgrado, foi ameaçada pelas águas que transbordaram do rio Sava, cujo caudal foi saturado pela chuva que caiu na Croácia.

Tanto a central Nikola Tesla como a Kostolac foram palco de uma operação preparada pelas autoridades e executada por centenas de voluntários, soldados e trabalhadores da empresa energética estatal ao longo de três dias. Passaram noites a construir barreiras com sacos de areia para proteger o local, dos quais certos setores foram desativados por precaução.

Embaixada da Sérvia apela à ajuda de Portugal

A embaixada da Sérvia em Lisboa desencadeou uma campanha de solidariedade na sequência das cheias que atingem o país.



«Não apelamos apenas aos cidadãos sérvios que vivem em Portugal, também gostaríamos de apelar ao povo português, sabendo que temos relações muito calorosas e decerto a compreensão para que nos ajude nesta situação muito difícil», disse esta segunda-feira à Lusa o embaixador sérvio, Mirko Stefanovic.



Numa primeira iniciativa, a representação diplomática de Belgrado está a promover a recolha de ajuda humanitária no Porto, para a zona norte do país, na embaixada de Lisboa para a zona centro e ainda em Albufeira, no Algarve, sendo ainda ativada uma conta bancária para donativos, com todas as informações incluídas no site da embaixada (http://www.lisbon.mfa.gov.rs/por/), em permanente atualização.