A imagem é por si só simbólica: Dilma Rousseff ampara o já debilitado, mas sempre icónico, Fidel Castro. Esta segunda-feira, a presidente brasileira e o líder cubano reuniram-se, em Havana, numa curta sessão em que Dilma não só agradeceu a colaboração no envio de médicos para o Brasil, como discutiu o futuro do porto de Mariel, um investimento brasileiro em Cuba, na ordem dos mil milhões de dólares. A foto simbólica é, portanto, mais do que isso. É também um ponto de contestação entre as cúpulas brasileiras, como retrata, o El País na edição desta terça-feira.

Depois da participação em Davos, no Fórum Económico Mundial, em que Dilma sublinhou a abertura da política externa brasileira ao investimento estrangeiro, a presidente seguiu para Cuba. Na agenda, para além do encontro com o histórico líder cubano, a inauguração, ao lado de Raul Castro, de um terminal internacional de contentores, no porto de Mariel. O investimento contou com quase 700 milhões de dólares financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES), a instituição de fomento produtivo do Brasil. A obra levada a cabo pela Odebrecht contou com a parceria da companhia Quality, vinculada ao governo cubano.

A quantia elevada do investimento está no centro da contestação empresarial no Brasil. Segundo escreve o El País, o ex-ministro do Desenvolvimento do Governo Lula, Miguel Jorge, garante que este projeto tem um grande valor estratégico para o país. «O Brasil está a posicionar-se num momento em que Cuba está a abrir a economia», diz Miguel Jorge, que foi o responsável por pelo acordo com o governo cubano quando era ministro. «O porto vai atrair empresas brasileiras que poderão exportar para a América Central e isso é muito importante», afirma. Uma importância que se centra na premissa do Brasil ocupar o lugar que já foi da Venezuela no fomento da economia venezuelana.

«O Brasil quer tornar-se parceiro de primeira ordem de Cuba», assumiu Rousseff, durante a inauguração do porto. A «generosidade» do Brasil é, em alguma medida, retribuída com o programa Mais Médicos que leva para o Brasil, nomeadamente para o interior, clínicos em falta no país.

Mas o avanço para Cuba não acontece sem contestação. «O apoio às obras do porto de Mariel não é um simples investimento de infraestrutura, trata-se de um gesto político», considerou, segundo o El País, Alberto Pfeifer, diretor de negócios do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), que destaca a saída de Dilma de Davos, seguindo para Havana, como um movimento simbólico, que tenta cimentar a independência da presidente que «quer mostrar que é ela quem decide o que fazer, com quem, e de que forma», explica.

A contestação encontra eco nas lideranças empresariais que, por um lado, preferiam ver um investimento maior dentro de portas e não fora e por outro em projetos com maior impacto comercial. «Este porto cubano facilita o que para o país? O que existe aqui além de uma decisão política e ideological de ajudar a Cuba?», reclama um representante do setor privado, que não quis ser identificado. Já Paulo Vicente, professor, da Fundação Dom Cabral, acredita que a questão não é exatamente Cuba. «Não vejo problemas neste projeto do porto de Mariel, até porque se trata de uma política de Estado, que vai perdurar para além dos Governos Dilma e Raúl Castro», explica. «Desse ponto de vista, é muito bom para o futuro brasileiro. A questão é por que Cuba e por que não investir mais no Brasil», defende.

Dilma e outros presidentes latino-americanos encontram-se em Cuba para participar da II Cimeira da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), que começa esta quarta-feira em Havana.

Fidel Castro, para além do encontro com Dilma, também almoçou no domingo com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que foi a primeira chefe de Estado latino-americana a chegar em Cuba.