O trauma desta tragédia foi vivido de perto por uma prestigiada psicóloga norte-americana que está em Lisboa a participar numa conferência organizada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, no Centro Cultural de Belém.



Judy Kuriansky coordenou equipas de socorro e passou semanas no terreno a ajudar as famílias, os bombeiros, a polícia. E é sob o olhar desta psicóloga que recordamos o 11 de setembro.



Nessa manhã, os aviões bateram nos prédios gigantes. Os prédios caíram como se fossem de areia. Mas foi tão grande o que aconteceu em Nova Iorque... que foi ouvido até na China. Era precisamente em Pequim que Judy Kuriansky estava nessa terça-feira.

«Estava a dar um seminário a médicos chineses e um deles disse-me: - Drª Judy, tem que ver a televisão! E todos pensamos que era uma anedota». Não era uma piada, nem um conto de crianças. Era um horror, uma enorme tragédia.



Numa questão de horas, esta norte-americana estava no último avião a descolar para os EUA. Judy Kuriansky já tinha carreira feita como psicóloga. Tinha sido pioneira do aconselhamento médico na rádio em Nova Iorque, era presença habitual na televisão.



Judy Kuriansky acredita que é possível mudar o mundo. E acredita nisso desde os 8 anos. Foi rapidamente aceite no restrito grupo de psicólogos com carta-branca para circular no ground zero. Receber um urso de peluche era um conforto. Andar com fotografias da pessoa querida que estava desaparecida era uma espécie de amuleto.

«Havia um sentimento maravilhoso entre todos. Isto é o que acontece no trauma. Quando se partilha o horror, as pessoas ajudam-se umas às outras. É um calor que ainda hoje me emociona quando penso quão próximos éramos para encontrar os corpos e ajudar as pessoas que estavam a sofrer».



No álbum das memórias desta psicóloga ficaram gravadas as impressões desses dias e a emoção salta de forma intensa e inesperada quando fala dos que não consegue esquecer.



«Lembro-me deste eletricista que me contou como estava a fixar a iluminação porque toda a gente estava lá a trabalhar e ele lembrou-se de como a sua carrinha estava a andar pelo ground zero sobre restos humanos, estava traumatizado com isso».



Não esquece os bombeiros, as fogueiras em redor das quais se sentavam porque fazia muito frio, e nunca falta às cerimónias anuais em memória das vítimas porque teme que o tempo esmoreça a vontade de lembrar.



«É correto esquecer. Nunca se consegue esquecer, mas é bom pôr isso de parte. Mas também é bom querer partilhar e continuar a falar nisso. Há pessoas que precisam de estar juntas, que se sentem fortalecidas por estarem juntas. As duas formas estão corretas.

A experiência na zona do desastre da Torres Gémeas levou-a a correr mundo para ajudar no Katrina, no Tsunami do Japão, no sismo do Haiti. Mas não foi só isso que mudou.



«Enquanto cidadã tornei-me menos preocupada em saber se o governo está a observar o que as pessoas fazem, a ouvirem os telefonemas das pessoas, a porem câmaras nas ruas. Antes do 11 de setembro não achava isso correto, pensava que merecíamos a nossa liberdade e a nossa privacidade. Eu vi o medo que as pessoas sentiram depois do 11 de setembro que durou e durou. As pessoas não iam até à ponte, nem pensar andar de avião, não entravam num autocarro, não queriam mandar os filhos para a escola se não os levassem de carro».

Judy Kuriansky viveu o 11 de setembro e sabe como o mundo mudou. Nesse dia, a ameaça terrorista foi reforçada.

«Os fundamentalistas e aqueles que odeiam e aqueles que querem destruir governos e ser o novo poder, ganharam confiança e acreditam que podem fazer alguma coisa. Isso é horrível. Por outro lado, a triste experiência do 11 de setembro teve o lado positivo de acordar as pessoas. Este não é um mundo simples. Temos de prestar atenção para o facto de haver pessoas que estão zangadas e que querem o poder e que farão tudo para conseguir esse poder».