Farinha. Massa. Leite. São três bens essenciais que a maioria das pessoas no mundo tem disponíveis na cozinha. Três alimentos à venda em mercearias e supermercados para que em qualquer casa se possa cozinhar uma refeição elementar ou tomar uma bebida nutritiva rápida. Mas na Venezuela, as coisas não são assim: só obtém esses alimentos quem tem sorte, contactos ou dinheiro. Muito dinheiro.

Uma reportagem da estação de televisão norte-americana CNN constatou que no país de Nicolás Maduro quase nunca há leite fresco nas prateleiras. O mesmo acontece com o leite em pó, que é vendido no mercado negro 100 vezes mais caro do que o preço oficial. Encontra-se leite à venda por 7.000 bolívares venezuelanos (626 euros), embora quem tiver dólares americanos possa trocá-los no mercado negro a taxas muito mais favoráveis, talvez recebendo 1.000 bolívares (89 euros) por dólar.

O mesmo acontece com a farinha de milho, que é o ingrediente principal da arepa, um prato de massa de pão feito com milho moído ou com farinha de milho pré-cozida na cozinha tradicional da Venezuela e consumido com todo o tipo de recheios. Se estiver disponível num supermercado do Governo custa à volta de 190 bolívares (17 euros) o quilo, e não muito mais num supermercado de gerência privada. Mas no mercado negro chega a ser 15 vezes mais caro.

Os mantimentos no país são de tal forma escassos, que a CNN encontrou um quilo de massa à venda por um preço 200 vezes superior ao oficial em Caracas.

Obter mantimentos no mercado negro é ilegal e pode ser perigoso. E é muito caro para muitas pessoas na Venezuela. Só a compra destes três bens alimentares – uma embalagem de farinha, outra de massa e uma caixa de leite em pó - pode “engolir” quase o salário de um mês inteiro para aqueles que auferem o salário mínimo, cerca de 15.000 a 20.000 bolívares (1.344 a 1.792 euros).

E é por isso, refere a CNN, que muitas pessoas não têm opção a não ser ir ao supermercado público para adquirir alimentos subsidiados. E as regras são rigorosas. Os venezuelanos esperam pelo dia da semana designado como aquele em que podem ir às compras de acordo com o bilhete de identidade. Depois tentam descobrir qual é a loja que pode ter o que precisam, e a seguir, esperar na fila durante horas e horas, e ainda assim podem sair com quase nada.

"Estive à espera na fila desde as 03:00 e só consegui dois tubos de pasta de dentes, por isso, acho que hoje à noite vou ter para comer pasta de dentes", disse à CNN Monica Savaleta, uma dançarina de 19 anos.

Para a jovem, ir comprar aos vendedores do mercado negro, conhecidos pejorativamente como "bachaqueros" ou aproveitadores, não é viável.

 "Eu ganho entre 12.000 e 15.000 bolívares (1.074 e 1.343 euros) por mês. Se eu comprar aos bachaqueros, todo o meu salário se vai em três quilos de arroz”, acrescentou.

Wilfredo Cardona, de 25 anos, ganha consideravelmente mais como pedreiro, cerca de 40.000 bolívares (3.582 euros) por mês. Mas, muitas vezes, isso não ajuda.

"Eu vim para comprar farinha, arroz e açúcar e não fui capaz de encontrar nada", disse ele. "Tudo o que encontro é sabão e eu não posso comer sabão”, afirmou.

"No melhor cenário, posso arranjar um quilo de frango, um quilo de carne e um saco de arroz e um de farinha de milho com o meu salário. É isso”, rematou.

Amnistia Internacional recomenda ajuda humanitária

Não é de estranhar que os saques a camiões se repitam umas 10 vezes por dia na Venezuela, como aconteceu na terça-feira com um veículo pesado carregado de farinha de trigo que foi saqueado em Puerto la Cruz, uma cidade com quase 300 mil habitantes.

Conforme refere o site brasileiro da Globo, o desespero tornou-se rotina na Venezuela de Nicolás Maduro.

Nos supermercados, as prateleiras estão vazias. Em abril, o Congresso, de maioria oposicionista, decretou "emergência alimentar" no país e a Amnistia Internacional recomendou que a Venezuela peça ajuda humanitária.

O Presidente da Venezuela culpa os Estados Unidos, a Espanha, os empresários e a oposição. Na semana passada, Nicolás Maduro criou uma lei que permite ao Governo venezuelano convocar qualquer funcionário, público ou privado, para trabalhar no campo.

De acordo com a Amnistia Internacional, a lei criada pelo chefe de Estado corresponde a escravidão.