O ultraconservador cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, chefe do mais alto tribunal do Vaticano e crítico do papa Francisco, foi transferido para um posto honorário, como patrono da Ordem de Malta, confirmou o próprio.

Raymond Leo Burke será patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta, um posto honorário, mas fora da Cúria, e a sua transferência surge depois de aprovado pelo sínodo dos bispos um relatório final, sem acordo quanto aos divórcios e aos homossexuais, embora a posição vinculativa apenas surja em 2015.

«O papa não é livre para alterar os ensinamentos da Igreja em relação à imoralidade dos atos homossexuais ou à insolubilidade do casamento ou qualquer outra doutrina da fé», comentou o cardeal em declarações à página Internet Buzzfeed, companhia de notícias fundada nos Estados Unidos.

Raymond Leo Burke havia escrito no começo do mês uma carta aberta ao papa Francisco, em conjunto com outros cardeais conservadores, apelando para que este se mantivesse intransigente na defesa do casamento.

O sínodo dos bispos sobre a família, convocado pelo papa Francisco, aprovou no sábado um relatório final, sem que tenha sido alcançado um acordo em relação aos casos de divórcio e aos homossexuais.

Citado pela agência France Presse, o porta-voz do papa, padre Frederico Lombardi, disse que o relatório final foi «reequilibrado» para ter em conta a relutância dos prelados mais conservadores.

O relatório faz um inventário dos problemas diversos da família nos cinco continentes, como o acolhimento pela Igreja dos casais em união de facto, homossexuais ou divorciados.

Foram 183 bispos com direito a voto que participaram na votação de cada um dos 62 parágrafos do relatório. Para serem aprovados, têm de reunir a votação favorável de dois terços.

Alguns pontos não obtiveram essa maioria qualificada e dizem respeito ao acesso aos sacramentos por divorciados que voltaram a casar e ao acolhimento dos homossexuais.

A Igreja Católica proíbe aos casais divorciados e recasados o acesso a sacramentos como a confissão, o batismo ou a comunhão, por considerar que o casamento católico é indissolúvel.

Depois de duas semanas de debates, os bispos católicos terminaram o sínodo sobre a família que, nos últimos dias, foi marcado por polémicas em torno da abertura da Igreja a modelos familiares não tradicionais, nomeadamente com pessoas homossexuais.

«Quanto a estes pontos não podemos considerar que há um consenso do sínodo. Mas isso não significa que eles são completamente rejeitados», explicaram vários porta-vozes, citados pela France Presse.

O texto aprovado não apresenta, portanto, conclusões mas representa um passo em frente face ao próximo sínodo, sobre o mesmo tema, a decorrer em outubro de 2015.

O superior-geral dos jesuítas, ordem a que Francisco pertence, disse já a órgãos de imprensa religiosos que uma "revolução" no pensamento da Igreja é possível no próximo ano.