A recessão arrastou, desde 2008, 2,6 milhões de crianças para abaixo do limiar de pobreza nos países mais ricos do mundo, aumentando para 76,5 milhões as crianças pobres no mundo desenvolvido, segundo um relatório da UNICEF.

 

Apresentado esta terça-feira em Roma, o documento do Centro de Investigação Innocenti da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), intitulado «Crianças da Recessão: o impacto da crise económica no bem-estar das crianças nos países ricos», aponta as políticas de proteção social sólidas como «um fator decisivo na prevenção da pobreza».

 

Dados oficiais foram utilizados para alinhar 41 países da União Europeia e da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento da Europa) em tabelas classificativas, em função do aumento ou da diminuição dos respetivos níveis de pobreza infantil desde 2008, de acordo com diversos parâmetros analisados, indica o Comité Português para a UNICEF, em comunicado enviado à agência Lusa.

 

O relatório analisa também «a proporção de jovens entre os 15 e os 24 anos que não estão a estudar, a trabalhar ou a receber formação profissional», incluindo igualmente dados do inquérito mundial Gallup, sobre as perceções da população acerca do seu estatuto económico e expetativas para o futuro desde o início da recessão.

 

«Ainda que os primeiros programas de estímulo aplicados em alguns países tenham sido eficazes na proteção das crianças, em 2010 a maioria dos países alterou as suas políticas, passando do financiamento aos cortes, o que teve um impacto negativo sobre as crianças, particularmente na região do Mediterrâneo», lê-se no documento.

 

O diretor de Política e Estratégia Globais da UNICEF, Jeffrey O’Malley, sustentou que «muitos países ricos sofreram um grande revés em termos de rendimento dos agregados familiares e as consequências sobre as crianças e as suas comunidades terão repercussões a longo prazo».

 

«Os trabalhos de investigação da UNICEF indicam que a solidez das políticas de proteção social foi um fator decisivo na prevenção da pobreza; todos os países precisam de redes de segurança social sólidas para proteger as crianças nos maus e nos bons momentos - e os países ricos devem dar o exemplo, comprometendo-se explicitamente a erradicar a pobreza infantil, elaborando políticas para atenuar o impacto de crises económicas, e fazer do bem-estar infantil uma prioridade», defendeu.

 

Em 23 dos 41 países analisados, a pobreza infantil aumentou desde 2008, tendo o aumento da taxa sido superior a 50 por cento na Irlanda, Croácia, Letónia, Grécia e Islândia.

 

Na Grécia, em 2012, o rendimento mediano dos agregados familiares com crianças baixou para os níveis de 1998, o que representou uma perda equivalente a 14 anos de progresso em matéria de rendimentos.

 

Seguindo o mesmo indicador, a Irlanda, o Luxemburgo e a Espanha perderam uma década; a Islândia perdeu nove anos; e Portugal, a Itália e a Hungria perderam oito anos.

 

Outra das conclusões do relatório é que «a recessão afetou com especial dureza os jovens entre os 15 e os 24 anos de idade, tendo o número dos que não estão a estudar, a trabalhar ou a receber formação profissional aumentado de forma alarmante em muitos países».

 

Na União Europeia, 7,5 milhões de jovens (um número quase equivalente à população da Suíça) entraram nesta categoria.

 

Nos Estados Unidos, onde a pobreza infantil extrema aumentou mais durante esta recessão do que na de 1982, as medidas de proteção social proporcionaram um importante apoio para as famílias pobres que trabalham, mas foram menos eficazes para as que estavam em situação de pobreza extrema e sem trabalho, indica o documento.

 

A pobreza infantil aumentou em 34 dos 52 estados dos Estados Unidos desde o início da crise, e em 2012, 24,2 milhões de crianças viviam em situação de pobreza, o que representa um aumento líquido de 1,7 milhões desde 2008.

 

Em contrapartida, há 18 países em que a pobreza infantil diminuiu, por vezes de forma acentuada: a Austrália, o Chile, a Finlândia, a Noruega, a Polónia e a Eslováquia reduziram os seus níveis em cerca de 30 por cento, sublinha a UNICEF.

 

Para O’Malley, é ainda importante destacar que «este relatório concluiu que as políticas sociais de países que se encontram em circunstâncias económicas semelhantes variam consideravelmente, e que estas se traduziram de modo diferente para as crianças».