O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alerta esta segunda-feira que 3,7 milhões de crianças sírias, o equivalente a uma em cada três, nasceram durante o período da guerra, que se iniciou a 15 de março de 2011. Dessas crianças, 2,9 milhões vivem na Síria e pelo menos 811.000 moram em países vizinhos.

Síria: quando as crianças são vítimas da guerra (REUTERS)

O conflito já resultou em 2,4 milhões de crianças refugiadas, provocou a morte de muitas e levou ao recrutamento de crianças para o combate armado. Algumas destas crianças-soldado chegam a ter apenas sete anos. A UNICEF pede à comunidade internacional que tome medidas concretas para proteger esta nova geração que não conhece nada além de uma vida moldada pela guerra.

Mais de 2,1 milhões de crianças não vão à escola

Na data em que se completam cinco anos desde o início do conflito na Síria, o relatório "No Place For Children" (“Não há Lugar para Crianças”) faz um balanço aos cinco anos de conflito. De acordo com o relatório, mais de 80 por cento da população infantil do país (8,4 milhões de crianças) foi afetada pela crise, dentro ou fora da Síria. E 151 mil bebés já nasceram como refugiados nestes últimos cinco anos. 



“A violência tornou-se uma coisa comum nas residências, escolas, hospitais, clínicas, praças e locais onde são realizados cultos na Síria”, lamenta o diretor regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África.

Síria: quando as crianças são vítimas da guerra (REUTERS)

Peter Salama refere que um dos maiores desafios no país, além da fome, é a educação, pois a frequência das escolas atingiu o nível mais baixo da história. Neste momento, estima-se que mais de 2,1 milhões de crianças dentro da Síria e 700 mil nos países vizinhos estão fora das salas de aula.

Mais de um terço das crianças mortas na escola

O relatório da UNICEF dá conta de 1,5 mil violações graves praticadas contra crianças, incluindo mais de 60 casos de morte e mutilação resultantes do uso de explosivos em zonas de habitação. Destas crianças, mais de um terço foram mortas na escola ou a caminho da escola.

Anthony Lake, diretor executivo da UNICEF, refere que qualquer criança que tenha nascido nos últimos cinco anos nunca conhecerá a Síria de que os pais se lembram. Bombas transformaram as salas de aula, os centros de saúde e os parques em escombros. As ruas onde as crianças deveriam poder brincar estão bloqueadas por postos de controlo ou estão cheias de explosivos. Milhares de escolas e de hospitais fecharam. Em 2015, houve pelo menos 40 ataques a escolas. Mais de 6.000 escolas no país já não podem ser utilizadas.

Síria: quando as crianças são vítimas da guerra (REUTERS)

Doenças outrora erradicadas, como poliomielite, sarampo, hepatite A e leishmaniose, estão de volta. Sem trabalho e com dívidas, os pais já não podem adquirir bens essenciais. A água para abastecimento dos bairros está muitas vezes contaminada. Mais de dois terços das crianças - 70 por cento - está sem água potável. Em algumas partes da Síria, um país outrora desenvolvido e autossuficiente, as crianças estão a morrer de desnutrição aguda grave. Dois milhões de crianças estão sem acesso regular a qualquer tipo de ajuda.

Metade de todos os refugiados são crianças

Nos países vizinhos da Síria, o número de refugiados é quase dez vezes maior hoje do que em 2012. Metade de todos os refugiados são crianças. 2,4 milhões de crianças fugiram para países vizinhos. Algumas vão de carro, enquanto outras caminham durante dias a fio até chegarem em segurança. Desde o início da guerra em 2011, 15.525 crianças atravessaram sozinhas as fronteiras da Síria.

Crianças brincam no campo de refugiados de Bab Al-Hawa, junto à fronteira com a Síria (REUTERS)

A Síria é agora o país com o conflito mais mortal e complexo do nosso tempo, com impacto em milhões de pessoas e que afeta todos os continentes. Hoje, mais do que nunca, trata-se de uma crise relacionada à infância. Mais de oito milhões de crianças na Síria e em países vizinhos precisam de assistência. 

Crianças trabalham, casam-se e são recrutadas cada vez mais novas

De acordo com o relatório, que faz o balanço do impacto dos cinco anos de guerra na vida das crianças sírias, milhões de crianças cresceram antes do tempo, algumas forçadas a tornar-se no único ganha-pão da família, começam a trabalhar aos três anos. Enquanto outras não tiveram escolha a não ser casar-se aos 10 e 11 anos e a tornar-se esposas e mães muitas vezes aos 12 e 13 anos.

Síria: quando as crianças são vítimas da guerra (REUTERS)

Ao início, a maioria das crianças recrutadas pelos exércitos e grupos armados eram rapazes entre os 15 e os 17 anos e usados sobretudo em funções longe das linhas da frente. Mas agora, sublinha o relatório, desde 2014, todas as partes envolvidas no conflito têm recrutado crianças muito mais novas, algumas com apenas sete anos, e frequentemente sem o consentimento dos pais. Mais de metade dos casos em 2015 envolvia crianças menores de 15 anos. Em 2014, a percentagem era de 20%.

O director da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África sublinha que “Não é demasiado tarde para as crianças sírias”. “Elas continuam a ter esperança numa vida com dignidade e oportunidades. Elas continuam a acalentar sonhos de paz e a possibilidade de os concretizar”, diz Peter Salama.

Crianças brincam numa escola de Aleppo (REUTERS)

Também o diretor executivo da UNICEF pede à comunidade internacional que tome medidas concretas para proteger esta nova geração na Síria que conhece pouco mais do que violência, privação e incerteza.

“O que dizer a todas as crianças da Síria? Que não nos importamos se elas se transformarem numa geração perdida, por causa do que perderam em aprendizagem e boa saúde que irá afetá-las nos próximos anos? Não podemos restaurar os preciosos anos da infância arrebatados por esta guerra brutal, mas podemos e devemos impedir que o futuro também lhes seja roubado. Porque o futuro delas é o futuro da Síria”, afirma Anthony Lake.

A UNICEF e organizações parceiras lançaram por isso a iniciativa No Lost Generation(Não a uma geração perdida), que está “empenhada em restaurar a aprendizagem e proporcionar oportunidades para os jovens”.