A renegociação da dívida grega não é a única ideia de Alexis Tsipras que assusta as instituições europeias. Ao que parece, também a possível aproximação da Grécia à Rússia é um problema. Daí ao suposto mal-entendido que se gerou nas últimas horas foi um pequeno passo.
 
Ainda o novo governo grego tomava posse, na terça-feira, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, emitia um comunicado em nome de todos os Estados-membros que antevia novas sanções à Rússia devido ao conflito na Ucrânia.
 
Tsipras não gostou. Segundo a AFP, o primeiro-ministro grego telefonou de imediato à chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, a expressar a sua «insatisfação» por não ter sido consultado.
 
Mogherini já tinha convocado uma reunião de emergência dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE para esta quinta-feira para preparar as novas sanções à Rússia. Qualquer decisão que saia destas reuniões necessita de consenso e, como tal, os meios de comunicação social começaram a analisar a hipótese de um veto grego.
 
No entanto, esta quinta-feira, o novo ministro das Finanças grego veio esclarecer o tal mal-entendido. No seu blog, Yanis Varoufakis escreveu um post com o título «Uma questão de respeito (ou falta dele…) - o veto grego sobre a Rússia que nunca existiu».
 
Segundo Yanis Varoufakis, a confusão foi gerada pelo «poder de distorção dos media». Ainda que sublinhando que não está «qualificado» a falar sobre assuntos externos, o ministro das Finanças esclareceu a posição do governo de Tsipras.
 

«A imprensa mundial encheu-se de relatos sobre como a primeira medida de política externa do governo do Syriza seria o veto às novas sanções à Rússia (…) O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Nikos Kotzias, informou-nos que, no seu primeiro dia no cargo, soube pelas notícias que a UE tinha aprovado por unanimidade novas sanções à Rússia. O problema é que ele, e o novo governo grego, nunca foram ouvidos!»


Portanto, para Yanis Varoufakis, que vai iniciar já este domingo uma ronda de conversações com outros ministros das Finanças da UE, começando por Londres, «a questão» não é se o governo grego concorda ou não com as sanções.

«A questão é se a nossa visão pode ser tomada como garantida sem sequer sermos informados! Na minha perspetiva, (…) é tudo uma questão de respeito pela nossa soberania nacional».


O ministro das Finanças grego apelou então aos jornalistas para «distinguirem» a queixa de a Grécia não ter sido ouvida de uma oposição às sanções. «Ou isto é muito complicado?», conclui.
 
Segundo especialistas ouvidos pela AFP, é pouco provável que o governo grego trave as sanções à Rússia, uma vez que a prioridade é a renegociação da dívida e o veto nesta reunião podia deixar os credores incomodados.
 

«A preocupação de todos é mantermo-nos unidos. Não é do interesse da Grécia abrir demasiadas frentes ao mesmo tempo. Eles serão certamente suaves [com a Rússia], mas não vão travar [as sanções]», disse fonte de Bruxelas.

 
Seja qual for o desfecho da votação, a aproximação de Tsipras ao Kremlin continuará, no entanto, a ser vista como um problema para a União Europeia.

Em maio do ano passado, após a Rússia ter anexado a Crimeia, o líder do Syriza foi a Moscovo reunir-se com autoridades governamentais. De acordo com o comunicado que saiu dessa reunião, Alexis Tsipras manifestou-se contra «a expansão da NATO para o leste» e o «neo-fascismo» do governo de Kiev. Apelou ainda a uma «política construtiva» da UE tanto com a Ucrânia como com a Rússia.