A crise migratória atual poderá ser a mais grave ameaça para a União Europeia desde a sua criação, já que os fantasmas do nacionalismo ensombram o sonho de unidade nascido no pós-guerra, alertam políticos ouvidos pela AFP.

Embora a UE já tenha vivido outros momentos difíceis, nomeadamente a queda do Muro de Berlim ou a crise da dívida da Zona Euro, os políticos ouvidos pela AFP acreditam que o afluxo de refugiados e imigrantes está a criar divergências mais perigosas, que poderão mesmo levar ao fim do bloco.

A única esperança é que esta ameaça ao ideal europeu de solidariedade, nascido das cinzas do pós-guerra, mostre que, antes como hoje, a abordagem cada-um-por-si não funciona.

Acredito mesmo que é a crise mais grave que a União Europeia enfrenta em muitos anos, provavelmente a mais grave desde o início do processo de integração europeia", disse o ex-presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso.

Barroso, que liderou a UE entre 2004 e 2014, alertou para os "velhos demónios da xenofobia e da intolerância" na Europa, afirmando que a crise migratória vai para além da economia.

Tem uma natureza existencial porque é polarizadora", disse o político português, numa entrevista telefónica desde a universidade norte-americana de Princeton, onde agora dá aulas.

Mais de 1,25 milhões de refugiados entraram na Europa desde o início de 2015, em fuga da guerra e da pobreza na Síria, no Iraque, no Afeganistão e de outros países no Médio Oriente e no Norte de África.

Trata-se da maior crise migratória que o continente enfrenta desde 1945, mas os políticos ouvidos pela AFO acreditam que o verdadeiro perigo reside nas divisões que está a provocar entre os 28 Estados-membros.

O ex-eurodeputado franco-alemão Daniel Cohn-Bendit teme que a Europa não consiga alcançar agora uma solução conjunta como a que foi encontrada recentemente para a crise da dívida da Zona Euro.

Hoje temos a impressão de que existe uma insensibilidade incrível e que está cada um por si. Isto é muito perigoso para a ideia europeia", disse Cohn-Bendit.

A chanceler alemã, Angela Merkel, que abriu as fronteiras da Alemanha a mais de um milhão de migrantes no ano passado, foi aplaudida por Durão Barroso, Cohn-Bendit e outros, por dar um exemplo a outros Europeus.

Só Merkel tem estatura europeia. O resto são anões políticos", disse Cohn-Bendit.

A recusa de alguns líderes europeus, nomeadamente o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, em cumprir a lei europeia no que diz respeito aos migrantes preocupa os observadores.

Para Alain Lamassoure, eurodeputado francês, esta recusa criou "a crise mais grave" que a UE já enfrentou.

O ex-primeiro-ministro Belga e líder do grupo Liberal no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt, alertou mesmo que esta crise pode "destruir o projeto europeu".

O espaço Schengen, por exemplo, um pilar da unidade e da livre circulação na Europa, poderá colapsar, à medida que muitos dos 26 Estados-membros reintroduzem temporariamente as fronteias para impedir o afluxo de imigrantes.

Para Verhofstadt, assumidamente federalista, "a única saída é dar um salto em frente no sentido de uma maior integração europeia".

Assim como o fundador da UE Jean Monnet escreveu nas suas memórias que "a Europa será forjada em crises", os europeístas têm esperança que o bloco europeu seja mais resiliente do que por vezes se crê.

No início as posições são por vezes muito distantes, mas com negociação e compromisso, no final haverá uma abordagem comum", disse Durão Barroso.

Desde que adotaram, em setembro, um plano para recolocar 160 mil refugiados dos Estados-membros mais afetados, a Grécia e a Itália, os países da UE ainda só acolheram 600 pessoas.