“O ministro revolucionário das Finanças da Grécia merece ser ouvido”. O título é, logo, um elogio a Yanis Varoufakis, num artigo assinado, esta segunda-feira, na Bloomberg, pelo economista Mohamed A. El.Erian, que é presidente do Conselho de Desenvolvimento Global de Barack Obama. Como de costume, o governante grego usou o Twitter para responder prontamente, agradecendo as “palavras amáveis”. Aproveitou, também, para deixar um lembrete na mesma rede, onde é seguido por 404 mil utilizadores. Para quem quiser ler, escreveu com ironia: “Um ponto de informação: apesar dos rumores fantasiosos, ainda sou ministro das Finanças da Grécia e negociador da EG!”. Isto depois da  remodelação da equipa que está a negociar com os parceiros europeus, pelo governo, interpretada como um afastamento de Varoufakis da linha da frente.
 

O artigo de El. Erian, que motivou o tweet do ministro grego das Finanças, começa atestando que nem sequer falou alguma vez com Varoufakis, mas “sente” que está a conhecê-lo cada vez melhor através do que escreve, das suas entrevistas e das suas intervenções no tabuleiro europeu das negociações. É, diz, “uma lufada de ar fresco neste drama económico grego, prolongado e desgastante, que envolve custos humanos alarmantes”.

O conselheiro de Obama, que é também economista chefe da Allianz e diretor de investimentos da Pimco, congratula a “considerável lógica económica” de Varoufakis e o seu “desejo de fazer melhor”, pressionando um “maior realismo nas condições políticas exigidas pelos credores” da Grécia. Para além disso, “não se cansou de lembrar as pessoas de que a recuperação da Grécia não é responsabilidade do país sozinho”.
 

O seu estilo “pouco comum” de negociação também é destacado pelo economista, que admite que essa postura é “compreensivelmente intragável” para os seus parceiros europeus. Já  El. Erian gosta do que tem ouvido da boca de Varoufakis: “As subtilezas diplomáticas foram postas de lado a favor de debates francos. As introduções floridas deram lugar ao foco em assuntos divergência”, assinala.

Mais: “Tendo também sido parte de um governo que foi eleito com a promessa de restaurar a dignidade da Grécia, ele não hesitou em falar com outros ministros das Finanças europeus como um igual”.

Em que é que Varoufakis falhou? “Com o seu entusiasmo em oferecer uma solução big bang, ele negligenciou os passos pequenos de construção de confiança que foram necessários”, afirma.


Acordo: tarda a luz ao fundo do túnel


A gota de água foi a 24 de abril, mais uma reunião de acordo adiado - com o Eurogrupo a alertar que "o tempo está a esgotar-se" - e num ambiente de crispação, passados já 100 dias desde que o Syriza tomou o poder no país.

“Tsipras tinha pouca escolha a não ser substituir Varoufakis como negociador-chefe”, diz El. Erian que, "embora compreenda as razões para a decisão", reconhece que ficou "triste" . O coordenador é, agora, Euclides Tsakalotos, mas a equipa de negociação política continua a ser liderada pelo ministro das Finanças. Daí ele recordar, naquele tweet, que ainda está cá e é ministro.

El. Erian adverte, ao mesmo tempo, que a situação do país é “calamitosa” e que o dinheiro está “perigosamente” a desaparecer. Porém, defende que se Varoufakis é “impaciente”, é-o de forma “compreensível”. Porque, frisa, falou “verdade” quando defendeu que as reformas económicas na Grécia, “não importa quão corajosas sejam, não terão sucesso a não ser que as condições de austeridade orçamental sejam relaxadas e haja um maior alívio da dívida”. 

A Grécia continua numa corrida contra o tempo para o desbloqueio de mais uma tranche de ajuda financeira. Com ou sem acordo, a bancarrota é um fantasma a pairar sobre o país. Na semana passada, o primeiro-ministro grego disse acreditar que o acordo tão aguardado será alcançado até ao dia 9 de maio.