O especialista em ciência das Religiões Paulo Mendes Pinto defendeu, em entrevista à agência Lusa, que a adesão de jovens ocidentais ao radicalismo do Estado Islâmico traduz o falhanço da educação europeia e está a atingir o ego da Europa.

Paulo Mendes Pinto foi entrevistado pela agência Lusa a propósito do I Congresso Lusófono de Ciência das Religiões, que se irá realizar em Maio.

O especialista considerou que a crise económica e financeira instalada no país revelou um crescimento do fenómeno religioso. Acrescentou que esse crescimento não teve lugar em torno das instituições religiosas. «Não temos qualquer estudo, mas a perceção é que a prática dominical na Igreja Católica continua a diminuir», exemplificou.

O diretor da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona sublinhou que atualmente as pessoas «prezam muito a liberdade» nas suas opções espirituais e «podem encontrar coerência na Igreja Católica, como podem encontrar nos ensinamentos budistas ou hindus». Por isso, o aumento da procura pela religião está a verificar-se sobretudo nas confissões com «menos carga institucional», como as igrejas cristãs menos tradicionais.

Mendes Pinto considera que as religiões são uma componente da sociedade que não desapareceu, afirmando que algumas correntes religiosas até têm cada vez mais força. «Os jovens, perante os desalentos que a Europa lhes dá - desemprego, falta de valores, corrupção, luta cega por riqueza - optam por um modelo diferente», explicou.

«O que temos hoje no Iraque e na Síria é consequência da forma completamente inconsciente com que nas últimas duas dezenas de anos os governos europeus e americanos lidaram com aquela zona do globo. Apoiaram-se ditadores, retiram-se ditadores e a única coisa que fizemos foi lançar aquela zona no caos», sustentou.

O Estado Islâmico, grupo radical que controla partes da Síria e do Iraque, aspira a constituir um califado, liderado por um único líder religioso e político e governado sob a lei islâmica, a Sharia. O movimento usa táticas terroristas como assassínios em massa, sequestros, perseguições a membros de minorias étnicas e religiosas, e decapitações de soldados e jornalistas.

Nos últimos meses, a comunicação social têm dado conta da adesão de jovens europeus, incluindo vários portugueses, a este movimento, que enfrenta atualmente uma ação militar norte-americana.