Gerardo tem 52 anos e sofre de hepatite C. Há 30 anos que o seu fígado está à beira de cirrose. É uma das nove pessoas que, em Espanha, pediram permissão para pagar o tratamento do próprio bolso, podendo assim ter acesso a um novo medicamento que lhes pode salvar a vida, mas que o Estado não comparticipa.

A história de Gerardo (nome fictício) é contada pelo jornal «El País». «Foi dito ao meu marido que ele tinha seis meses para ser tratado», conta a esposa de Gerardo, em declarações ao jornal.

«Depois saiu na imprensa que este medicamento tinha sido autorizado. Como a sua chegada a Espanha parecia iminente decidimos esperar», acrescenta.

Gerardo e a esposa conversaram com associações de doentes, farmácias no exterior e decidiram comprar o Sovaldi (é este o nome comercial do medicamento) através de uma clínica privada. A clínica pediu a permissão da Agência Espanhola de Medicamentos para importar o droga e, em 20 dias, recebeu a autorização. O medicamento demorou apenas dois dias a chegar.

Um mês de tratamento custou-lhes 17 mil euros e a terapia dura três meses. Por isso, não tiveram outra opção senão recorrerem ao banco pedindo um empréstimo.

Como Gerardo, são 800 mil os espanhóis que sofrem de hepatite C, a principal causa de cancro de fígado e para a qual não existe vacina, mas já existe um medicamento. O Sofosbuvir - de nome comercial Sovaldi - é um medicamento potente, denominado como a penicilina da hepatite, por causa da elevada taxa de cura: mais de 90% em combinação com outras drogas.

O problema é que este medicamento também é famoso pelo preço a que a farmacêutica que o produz, a Gilead, o comercializa. Custa 60 mil euros, metade do valor de um transplante de fígado.

A aprovação deste medicamento foi recebida com entusiasmado na Europa, em janeiro. É visto como primeiro passo para a erradicação da hepatite C, um grave problema de saúde pública que afeta entre 130 e 150 milhões de pessoas no mundo e que, em cada ano, mata entre 300 mil e 500 mil pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O problema é que o fármaco chegou num momento em que custa muito as terapias inovadores entrarem no sistema público. Desde que a Agência Europeia dos Medicamentos autorizou o fármaco que o Ministério da Saúde espanhol está a negociar com a empresa Gilead.

Cerca de 3 mil pacientes espanhóis não se conseguem curar com as terapias atuais e necessitam deste fármaco com «urgência», disse o hepatologista José Luis Calleja, secretário da Associação Espanhola para o Estudo do Fígado.